Encontro com a Artista: Brígida Baltar

brigida

Visitação: de terça a sexta-feira das 10h às 18h
09 de dezembro de 2009 a 18 de fevereiro de 2010

Encontro com a Artista, dia 09 de dezembro, às 18h e Abertura, às 19h

Na próxima semana, o Museu Victor Meirelles promove a abertura da primeira exposição individual da artista Brígida Baltar no estado de Santa Catarina. Intitulada alguns vídeos, a mostra apresenta um recorte da sua produção, pensado a partir de ações realizadas pela artista em séries conhecidas como A coleta da neblina, 1998-2005, Casa de Abelha, 2002, Maria Farinha Ghost Crab, 2004, e também trabalhos menos conhecidos, como Wind, Londres, 2004, o vídeo Algumas Perguntas, 2005 e Quando fui carpa e quase virei dragão, realizado no Japão, em 2004 e que, além do vídeo, apresenta desenhos, em aquarela sobre papel, realizados em 2009. Além disso, a mostra inclui uma projeção de slides com ações realizadas no âmbito da casa, fundamentais no processo da artista, como Abrigo, Torre e Horta da Casa.

Aglutinados sob o título despretensioso, em alguns vídeos, algumas ações, a artista chama a atenção para o processo reflexivo envolvido na criação das séries e os seus percursos, localizando e problematizando recorrências, antecedentes de algumas ações e desdobramentos a partir das relações que se estabelecem entre trabalhos de diferentes períodos de sua carreira.

Além das possibilidades de aproximação entre a linguagem do vídeo, ações, desenhos e materiais efêmeros utilizados pela artista, outro dado importante nesta mostra é a relação entre os vídeos e o espaço expositivo específico do Museu, proposta pela artista por meio da criação de situações sutis relacionadas à instalação dos trabalhos e aos diálogos entre as imagens.

O texto de Ana Lucia Vilela, que acompanha a mostra, aponta, de forma poética, algumas questões caras à produção da artista, incluindo outras possibilidades de lidar com o tempo, a aproximação com o universo da fábula, além de noções como desaparecimento, visibilidade e trânsito entre formas.

Sobre a artista:
Brígida Baltar (Rio de Janeiro, 1959) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sua formação foi realizada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Nesta época, integrou o Grupo Visorama, formado por artistas, no Rio de Janeiro. Na década de 90, começou a trabalhar com ações e registros em sua casa, explorando materiais como goteiras, tijolos, intervenções no ambiente externo, norteados pela forte presença do corpo e da própria experiência da artista no ambiente doméstico. Destas experiências realizadas na casa, começou a realizar ações na natureza, sobretudo através das coletas de elementos como neblina, maresia e orvalho, apresentados em fotos, filme 16 mm, vídeo e desenhos. Entre as exposições recentes, pode-se destacar: An Indoor Heaven no Firstsite, em Colchester, Inglaterra, 2006, Passagem Secreta, na Fundação Eva Klabin, Rio de Janeiro, em 2007. Integrou o Panorama de Arte Contemporânea 2007, no Museu de Arte Moderna de São Paulo e Espaço Alcalá em Madrid. Participou da exposição Body Nostalgia, MOMAT- Museu de Arte Moderna de Tóquio, em 2004 e Escola Darcy Ribeiro – Capacete Entretenimentos, Rio de Janeiro; Bienal Internacional de São Paulo, em 2002 e C’est pas du cinema, Studio Fresnoy Nacional des Arts Contemporains, França.

Amor de fresta. Era o título. Redundava porque amor é precisamente o que se faz rasgando, faz fresta. E é também o que se mete lá na fresta, fingindo/cobiçando ser da mesma matéria.

Os pés ali perto, numa beira d’água, balançando, querendo escorrer do tornozelo e tentados a adquirir, por força mimética de ornamento (meias e sandálias), a fluidez colorida da carpa. Não foi sua primeira tentativa.

Amanheceu com neblina. Os olhos perderam as linhas que dividem os limites entre as coisas – e adoraram porque descansaram do eterno nomear, embora se apertassem um pouco para ver, em vão, o que vem lá. Neblina tampouco é noite escura; é claridade sem nitidez, sutil e silencioso apagamento. Queriam, os olhos, possuir doses desse estranho unguento. Houve quem se tivesse vestido apropriadamente e providenciado receptáculos igualmente apropriados para coletar um pouco dessa substância. O tempo se atrasou na demora da coleta e o coletor adquiriu uma certa qualidade etérea.

Maria Farinha anda de lado. Quase sempre em linhas paralelas àquela linha vaga e indecisa do litoral. Maria Farinha mora na areia e tem uma tentação pelo imenso aquoso do mar. Amor de desespero, inquieto, impossível, amor de morte. Veste cor de areia e cava buracos onde se enfia na esperança de se tornar indiferente grão.

Esperando o metrô. Enquanto isso, tenta coletar nos cabelos o vento que chega antes do vagão.

Uns tijolos antigos, maciços, robustos – empilhados em parede perene, estática e demarcadora do espaço – ansiavam a fluidez do pó que não separa nada, talvez porque já seja, ele mesmo, um resto, vestígio de ruína. Havia também um desejo de fazer paisagem de grandes extensões sem posse, onde se possa vagar com o vento. Muito tempo depois se cansaram os tijolos tornados pós e agora gostavam das frestas aonde iam se aquietar. Havia uma fresta, em longínquas terras, grande entre tábuas do chão, de onde eram sempre varridos. Da sua memória de argila juntaram forças para se fazerem tijolos novamente, agora diminutos, e preencher as frestas, com a presteza das traças e lagartixas. Não se deram conta de que não fizeram mais que multiplicá-las. Outros viraram cobogós, mais afeitos a permeabilidades … era saudade dos ventos.

O mel desce as escadas, percorre as frestas, abandona-se um pouco e segue.

texto de Ana Lucia Vilela

 

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