Sessão solene na Assembléia Legislativa

Sessão solene na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina em homenagem aos 180 anos de nascimento de Victor Meirelles

Senhoras e senhores,

É com grande orgulho que comemoramos no último dia 15 de novembro, os 60 anos do Museu Victor Meirelles. Neste ano de 2012 e que comemoramos também os 180 anos de nascimento do artista Victor Meirelles de Lima, é com grande satisfação que celebramos estas duas datas, nesta Casa, que é a representação da Casa do povo florianopolitano.

Victor Meirelles de Lima nasceu em 18 de agosto de 1832, na cidade de Nossa Senhora do Desterro. Filho do comerciante português Antonio Meirelles de Lima e da catarinense Maria Conceição Prazeres, iniciou seus estudos artísticos entre 1838 e 1845, em Santa Catarina.

victorVictor Meirelles produziu um grande acervo de minuciosos esboços, estudos em papel e pinturas ao longo de sua carreira.

Em 1846, o Conselheiro do Império, Jerônimo Coelho, em passagem pela vila de Nossa Senhora do Desterro, conheceu Victor Meirelles e propôs ao menino que enviasse trabalhos seus ao Rio de Janeiro. Este fato rendeu ao então adolescente Victor Meirelles a oportunidade de estudar na Academia Imperial de Belas Artes. Em 1847, com 15 anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Academia, onde iniciou o curso de pintura histórica. Em 1852, obteve o prêmio de viagem ao exterior, permanecendo cerca de nove anos entre Itália e França.

Chegando à Itália em 1853, Victor Meirelles foi orientado, em Roma, pelos mestres Tommaso Minardi e Nicola Consoni, entrando em contato com a pintura purista que possuía “um claro programa de recuperação da simplicidade estilística e do puro sentimento da natureza, próprios dos artistas anteriores a Rafael”. Victor Meirelles estudou obras dos mestres italianos e logo o jovem brasileiro conseguiu a renovação do pensionato, seguindo para Paris em 1857.

Em Paris, matriculou-se na Escola de Belas Artes local e começou a ter aulas com o mestre Léon Cogniet. No seu último ano em Paris, em 1861, Victor Meirelles realizou um feito inédito para um pintor brasileiro: participou do célebre Salão de Artes de Paris com a obra “Primeira Missa no Brasil”.

Após cerca de nove anos na Europa, Victor Meirelles retornou ao Brasil em 1861. No ano seguinte, foi nomeado professor de pintura histórica e de paisagem na AIBA, cargo que exerceu até 1890, quando foi afastado da Academia em virtude do novo regime político no Brasil, a República.

Com a Proclamação da República, em 1889, a direção da AIBA foi modificada, passando a se chamar Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). A partir disso, surgiram propostas de renovação no ensino das artes e os antigos professores, como Victor Meirelles, foram exonerados. Desde 1885, procurando alternativa à pintura histórica e às encomendas oficiais, em 1886, Victor Meirelles fundou uma empresa de panoramas na cidade do Rio de Janeiro.

A compreensão da obra de Victor Meirelles passa necessariamente pelo entendimento do estilo neoclássico, caracterizado por um retorno aos princípios greco-romanos, com valores sustentados não só na obra de arte perfeita por imitar os mais preciosos detalhes da natureza, mas também pela busca da máxima aproximação possível do que já haviam feito os artistas clássicos gregos e renascentistas.

O Romantismo, por sua vez, influenciou Victor Meirelles em diversos trabalhos, principalmente a partir de sua temporada na Europa, onde entrou em contato com diferentes mestres, grandes obras e movimentos artísticos.

Uma das mais conhecidas telas brasileiras, “Primeira Missa no Brasil”, de 1860, durante anos foi reproduzida em cadernos escolares, selos, cédulas monetárias, livros de arte, catálogos e revistas. Além de quadros históricos, Victor Meirelles também foi autor de retratos e panoramas de paisagens urbanas, que marcaram a fase final da sua trajetória.

Devido a sua longa carreira como professor, Victor Meirelles teve papel importante na formação de vários artistas, na segunda metade do século XIX. Algumas das obras de alunos seus fazem parte do acervo do Museu Victor Meirelles, entre eles Antônio Parreiras, Belmiro de Almeida, Décio Villares, Eliseu Visconti, Oscar Pereira da Silva e Pedro Peres.

Embora tenha realizado a tela final das principais batalhas em ateliês, Victor Meirelles esteve nos locais das batalhas que representou. Para pintar “Batalha Naval do Riachuelo”, 1872, e “Passagem do Humaitá”, 1872, encomendadas pelo Ministro da Marinha Visconde de Ouro Preto, o artista de fato acompanhou a Guerra do Paraguai, realizando estudos minuciosos que o ajudariam na construção da tela final. Para pintar a tela “Batalha dos Guararapes”, 1879, o artista esteve no monte dos Guararapes, em Pernambuco, onde a batalha ocorreu, no século XVII.

Como era próprio dos artistas acadêmicos, Victor Meirelles realizava inúmeros estudos antes de pintar as telas finais, fossem elas de cenas históricas, como as batalhas ou religiosas, fossem paisagens ou retratos. Os múltiplos desenhos preparatórios eram tão importantes para a construção da tela final, que através deles, Victor Meirelles foi capaz de reconstituir uma segunda versão da tela “Combate Naval do Riachuelo”. A primeira versão desta obra foi perdida em virtude das péssimas condições a que foi acondicionada durante seu retorno de navio da Exposição da Filadélfia, em 1876. Em 1882, em Paris, Victor Meirelles recorreu aos inúmeros estudos que havia realizado anos antes e reconstruiu a tela, hoje exposta no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

O Museu Victor Meirelles conta em seu acervo com diversos desses estudos de Victor Meirelles. São obras cujos detalhes buscados e estudados vão desde posicionamento de mãos até caimento de tecidos, formas de fivelas e capacetes, além das paisagens.

Na produção artística de Victor Meirelles destacam-se várias obras que retratam paisagens urbanas, datadas de diferentes períodos de sua trajetória.

Em um de seus primeiros trabalhos, o ainda adolescente Victor Meirelles retratou em aquarela a sua cidade natal, Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Na época, as ruas partiam de um centro irradiador, a atual Praça XV. Então conhecida como Largo da Matriz, tratava-se de uma grande área em torno da qual se ergueram a Matriz, a Casa do Governo e a Casa de Câmara e Cadeia, além de prédios térreos e sobrados, bem como o Mercado e a Alfândega. Esses registros da cidade podem ser claramente observados na obra do artista catarinense.

Ao longo de sua formação na Academia, Victor Meirelles também produziu estudos e obras que retratavam principalmente sua cidade natal e a capital do Império, o Rio de Janeiro. No caso da obra “Vista de Desterro”, Atual Florianópolis, 1851, em exposição no Museu Victor Meirelles, o artista representa o desenvolvimento da cidade próximo ao porto, hoje região aterrada, onde havia considerável movimento de navegações. Os estudos e as obras produzidas no período em que esteve na Academia demonstram o progressivo domínio da técnica que vinha desenvolvendo nas aulas.

O final de sua vida também foi marcado pela produção de trabalhos que retratavam as cidades, principalmente o Rio de Janeiro, através de panoramas.

O Museu

O Museu Victor Meirelles é uma unidade museológica vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus, do Ministério da Cultura e está instalado desde 1952 na casa onde o artista nasceu no Centro de Florianópolis, capital do estado.

Fachada do Museu Victor Meirelles - Foto: Eduardo Marques

Fachada do Museu Victor Meirelles – Foto: Eduardo Marques

Ao longo dos 60 anos de existência, o Museu Victor Meirelles foi construindo sua história e sua identidade.  Um percurso que compreende diversas ocorrências e desafios apaixonantes. O resultado é um museu de muitas realizações cujo processo relaciona o passado, o presente e que expressa uma forte tendência às inovações do futuro. Como pressuposto, a ideia de um museu vivo, ativo, que procura dar respostas às solicitações da comunidade e dos sujeitos que o visitam e frequentam para desenvolver a sua visão crítica, vivenciar experiências afetivas singulares e traçar percursos artísticos próprios com rica e animada vivência estética da vida.

O Museu hoje engloba não só o espaço das coleções e da casa do artista – patrimônio histórico – mas um espaço cultural de abordagem contemporânea, com uma constante agenda cultural sem perder de vista a preservação do acervo e do edifício com princípios técnico-científicos atuais da museografia, museologia e da conservação preventiva. E, acima de tudo, traz de maneira expressiva ao público a possibilidade de uma vivência dinâmica em um museu.

O legado de Victor Meirelles não está somente nas suas obras, expostas ou pertencentes a coleções particulares. Trata-se de um legado de possibilidades que se abrem às futuras gerações. Victor Meirelles é um exemplo de que a dedicação é uma virtude, assim como o estudo incessante e repetitivo, a prática do desenho e a busca pelo aperfeiçoamento da técnica pictórica.

Mesmo sabedor do seu dote natural para a pintura, Victor Meirelles não deixou um momento sequer de estudar e se aprimorar. E esse legado é trabalhado todos os dias no museu Victor Meirelles, quando recebemos alunos da rede pública, estudantes de artes e visitantes em geral. É o exemplo daquele menino, o talento que tocou o sentimento de Jerônimo Coelho, que toca a todos nós até hoje. É o exemplo desse catarinense ímpar que esteve e sempre estará na nossa lembrança.

Por tudo isso é que nós, do Museu Victor Meirelles, nos juntamos a Câmara de Vereadores de Florianópolis nas homenagens ao Museu e ao artista. No terreno fértil das novas gerações, regamos diariamente a semente plantada por Victor Meirelles. É com o trabalho realizado no museu que cultivamos todos os dias a vida e a obra de Victor Meirelles para que ele não seja somente reconhecido no passado, como vulto histórico e artístico da nossa pátria, mas para que ele esteja presente no futuro de todos nós.

180 anos de nascimento de Victor Meirelles.
60 anos de criação do Museu Victor Meirelles
Parabéns cidadãos de Nossa Senhora do Desterro.
Parabéns cidadãos de Florianópolis.

Obrigada.

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