Diálogos com a Desterro

A proposição do diálogo entre a pintura de Victor Meirelles, “Vista do Desterro, atual Florianópolis” (1874), e uma obra de autoria diversa tem como parâmetro inicial apresentar duas representações da paisagem da cidade de Florianópolis. A justaposição de duas pesquisas visuais traz, nos interstícios de sua aproximação, algumas reflexões importantes acerca da história da arte e da cultura e de seus respectivos contextos sociais.

Inicialmente é posto para o espectador a construção de um conceito abrangente de paisagem, pensado como percepção de determinado espaço e agregação de novas camadas de significados ao que é visto. A paisagem brasileira, inaugurada pelo olhar estrangeiro no período de sua colonização, esteve quase sempre ligada a projetos de nação. A modernidade trouxe ao país o olhar pautado pela industrialização, pelo mundo do capital e pela rápida transformação da paisagem das cidades. A experimentação artística da contemporaneidade coloca em questão um mundo em incansável mudança e que exige novas percepções de espaço-tempo.

Dois olhares, ancorados em poéticas visuais distintas, evidenciarão também outras atitudes estéticas e formais, observadas em sua linguagem e meios de representação. A paisagem, que ganhou autonomia no século XVII, coloca ao artista contemporâneo o dilema de pensar seu lugar através de diferenciadas ações e posicionamentos – intervenção direta, aporte crítico, novos desafios formais, estratégias de ficcionalização, reflexão sobre a imagem ou a reinvenção do ato da contemplação.

Por último, na fricção entre temporalidades diversas exercita-se o pensamento histórico, referido entre visões singulares da cidade, e o entendimento das artes visuais como uma leitura possível do mundo – nossa paisagem.

Paulo R. O. Reis

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