As Partes

Fernando C. Boppré é Bacharel e Licenciado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é mestrando em História Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. É o autor do blog Arte por Extenso (http://arteporextenso.blogspot.com).

Estudo para "Batalha dos Guararapes", Victor Meirelles de Lima, 1874/1878, Rio de Janeiro/RJ, Óleo sobre tela, 45,7 x 37,8 cm

Estudo para “Batalha dos Guararapes”, Victor Meirelles de Lima

Antes de compor, veja a ação em geral, veja depois cada uma das suas personagens: estude-as moral e fisiologicamente para que elas possam, cada uma por si, compor um todo harmônico e verdadeiro. (Manuel de Araújo Porto-Alegre em carta a Victor Meirelles).

Mais partes do que inteiros. As pinturas e desenhos legados por Victor Meirelles de Lima (1832-1903), hoje distribuídos em coleções públicas e particulares brasileiras, testemunham o processo de construção para obras como “Primeira Missa no Brasil” (1860), “Passagem do Humaitá” (1872), “Combate Naval do Riachuelo” (1872), “Batalha dos Guararapes” (1879) bem como para seus panoramas circulares da cidade do Rio de Janeiro.

Recentemente, uma pintura com data aproximada entre 1874-1878, estudo para a “Batalha dos Guararapes”(1), tornou-se pública após a doação realizada pela colecionadora Sara Regina Poyares dos Reis ao Museu Victor Meirelles. Em um rápido balanço, é possível dizer que a maior parte das sessenta e sete obras que compõe a coleção deste Museu são estudos ou esboços. Outrossim, o mesmo pode ser dito em relação ao imenso acervo do Museu Nacional de Belas Artes/IPHAN, do Rio de Janeiro, com aproximadamente mil obras, que apresenta, entre as telas e desenhos sobre papel, uma grande quantidade de estudos.

Constata-se, portanto, que o procedimento meirelliano era o de parcelar o mundo para melhor agir sobre ele: uma cabeça de cavalo, um estudo de rosto, um oficial holandês caído. É preciso cindir as coisas, afastá-las umas das outras, retirá-las do contexto original, para elaborar o traço, o volume daquilo que será representado pictoricamente. Deste modo, o mundo se divide, aliás, como no princípio. Em seus trabalhos iniciais, por exemplo em “Vista do Desterro, atual Florianópolis”, com data aproximada de 1846, este procedimento já lá estava. Como demonstrou Mário César Coelho(2), foram necessários três pontos de vista, três angulações para uma mesma visada. Com isso, Victor Meirelles entrou para a arte com um inventário das vistas da cidade em que vivia reunidas em uma única aquarela sobre papel, nesta que é a primeira obra conhecida do artista.

O estudo acadêmico aprofundaria ainda mais o conhecimento das partes do mundo. As coisas e as personagens de uma época surgiam aos poucos, lentamente em seu trabalho. Como quem olha o mundo pela primeira vez (ou pela última). Vale lembrar que a educação artística neoclássica era baseada no desenho das partes que constituiriam o todo de um óleo sobre tela, geralmente de grandes dimensões. É este o método implícito nas linhas enviadas a ele pelo mestre Manuel de Araújo Porto-Alegre. Ao planejar um universo pictórico, portanto, o artista deveria antes lançar-se ao desenho, à decomposição do motivo. Entretanto, caso a lógica neoclássica fosse levada ao extremo, chegar-se-ia à abstração. Afinal, após estudar uma personagem da batalha, o artista passaria para a sua cabeça, depois para os seus olhos, em seguida para suas retinas, enfim, num encadeamento microscópico que certamente alcançaria um conjunto indefinido de traços ou cores. O imperativo do tema, a necessidade de se falar da Pátria ou do Rito, no entanto, manteve estes artistas no universo figurativo.

E é esse jorro detalhístico que atinge, contemporaneamente, aquele que se propõe a atravessar a obra completa do artista. Essas partes chegam ao presente sem título ou, muitas vezes, passaram a ser chamadas pelos serviços técnicos dos museus por “Cabeça de velho”, “Estudo de traje italiano”, conferindo-lhes uma homogeneidade adversa. Nesta lógica, sua função na obra do artista é a de participar de um processo de construção de um outro quadro, mais digno, em maior escala e que repercutiu com maior grandeza na história da arte brasileira como, por exemplo, a “Batalha dos Guararapes”.

E se, no entanto, a operação analítica for outra? Se pensarmos o quadro per si, em seu aspecto único, como obra capaz de pronunciar a si própria sem remeter a outros títulos? Se esquecermos – por um minuto, pelo tempo e espaço da leitura deste texto – que o estudo de figura humana que temos diante dos olhos localiza-se no interior de “Batalha dos Guararapes”, na porção mediana do quadro? Se apagarmos, por um instante, as demais obras que se encontram em exposição neste Museu, se nos lançarmos para dentro desta obra, se nos posicionarmos em frente ao velho?

Então, deixar-nos-emos levar pela lupa que recai sobre o mundo, que independe da tela originária, que faz desaparecer todo o resto, deixando-nos a sós com a parte que agora é um todo. Apenas um rosto, sua barba, seus olhos: a cabeça de um velho e seu chapéu. E ainda mais.

1 Obra doada ao Museu Victor Meirelles em 19/08/2008.
2 COELHO, Mário César. Os Panoramas Perdidos de Victor Meirelles: aventuras de um pintor acadêmico nos caminhos da modernidade. 2007. 229 f. Tese (Doutorado) – Curso de História, Departamento de Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2007.

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