Breve noticiário sobre questões aparentemente isoladas

Letícia Bauer é Graduada e pós-graduada em História, com atuação profissional na área do patrimônio cultural e museus. Sua vida pregressa inclui muitas aulas de ballet. Sua vida presente inclui muitos livros e alguns documentos.  Atualmente é Diretora do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo.

Breve noticiário sobre questões aparentemente isoladas

Notícia nº 1 – Sobre pesquisa

Imagine um jogo onde você pode brincar com quantas peças encontrar. Some a isto uma capacidade ilimitada de combinação entre elas. Todas se relacionam entre si, apesar de ficarem ao gosto do jogador as formações possíveis. Agora, modifique a palavra jogador por pesquisador, a palavra peças por obras e documentos.

Notícia nº 2 – Boas cercas fazem bons vizinhos

Nestas quatro salas do Museu você encontra vizinhanças inusitadas, provavelmente nunca imaginadas por Victor Meirelles. Esta peculiar senhora, que dizem ser a baronesa Ribeiro de Almeida e pode ter figurado em alguma sala de jantar carioca pelos idos do século XIX, tem como vizinha da frente ninguém menos que Nossa Senhora do Carmo. Logo ali ao lado, A Morta espia, de relance, a Degolação de São João Batista. Essa brincadeira (bizarra, mas, ainda assim, brincadeira) relembra dois óbvios esquecidos:

óbvio 1 – as obras destas salas poderiam estar organizadas por meio das mais diferentes vizinhanças. Temos aqui o trabalho de costura de um curador e uma instituição. A nossa amiga baronesa poderia estar vislumbrando o senhor de barbas brancas que reside ali na próxima sala e que atende pelo título Estudo para Batalha dos Guararapes. E disso tiraríamos alguma lógica.

óbvio 2 – existem várias formas de se olhar para estas obras. Não hesite em observá-las ao seu modo. A senhora baronesa já está habituada a comentários ruborizantes. Primeiro divirta-se. Em seguida, estude.

Notícia nº 3 – As formas do conteúdo

Existe um Banco de Dados e Imagens desenvolvido por este Museu que concentra obras e documentos relacionados à vida e obra de Victor Meirelles. Obras que estão em instituições diferentes podem se aproximar na tela de um computador. Pode-se “colocá-las para conversar” por horas. Estudos á lápis de poltronas, mãos e condecorações, guardados no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, na capital carioca, podem ser identificados em retratos de provedores expostos na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Da Degolação de São João Batista, por exemplo, é possível encontrar detalhes do cinto e tecido, um estudo da cabeça e, meu preferido, o desenho esmerado de um homem que poderia ter sido o modelo italiano para o carrasco agora aqui exposto. Indícios. Todos produzidos e concentrados por Victor Meirelles, depois separados por doações, espólios, compras e vendas ao longo do século XX. Agora que estamos no XXI, a tecnologia proporciona esses felizes e intermináveis encontros. Mas não se engane, porque sempre existe o dúbio. Essas obras, naquela tela branca finalizada por uma barra de rolagem, são apenas imagens JPG. 800 x 600 pixels. Isso não diminui a graça. Eu agora, por exemplo, sou uma folha de papel colada ao lado da baronesa.

Vistas da Exposição Construção

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