Estudo para Passagem de Humaitá de Victor Meirelles

Prof. Dr. Jefferson Agostini Mello é professor da área de arte, literatura e cultura brasileira na Universidade de São Paulo – USP. Doutor em Letras pela USP e mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

Esboço de Paisagem para "Passagem de Humaitá", Victor Meirelles de Lima, circa 1868/1872, [Paraguai], Óleo sobre tela, 51,0 x 71,8 cm

Esboço de Paisagem para “Passagem de Humaitá”, Victor Meirelles de Lima

O presente quadro, juntamente com o Estudo para Passagem de Humaitá – também do acervo deste Museu – foi preparatório para Passagem de Humaitá (1868), tela de grandes dimensões, hoje no Museu Histórico Nacional. E, assim como ela, aqueles possivelmente foram concebidos dentro de um dos navios da marinha, em que Victor Meirelles instalou seu estúdio, durante a Guerra do Paraguai. De chofre, percebemos que o artista segue os ensinamentos da escola “purista”, cuja influência, rastreada por Jorge Coli, marcaria a sua obra: ênfase no desenho, de traço sutil, integrando, pela leve gradação das cores, o mineral, o vegetal e o céu. Ainda, tratando-se do tema da paisagem natural, podemos traçar relações com a pintura realista de um Corot. O resultado, graças à luminosidade um pouco esmaecida e à sutil captação da atmosfera, é o de uma imagem desolada, melancólica, do barranco. E, apesar de distante da estética impressionista, que visa a apreensão da luz sobre a paisagem, há algo aqui do que Luciano Migliaccio identifica como a “preocupação documental de Meirelles”, que é, igualmente, um modo de fixar o instante.

A Guerra do Paraguai – cujo bombardeio do último núcleo de resistência do inimigo é o tema da Passagem – marca uma conquista do Império, ao mesmo tempo em que contribui para impulsionar o surgimento da República. É ali que se organizam as forças armadas que ajudarão a difundir o pensamento positivista e que começa a se introduzir um novo espírito econômico, desejoso da industrialização do país. Victor Meirelles possui uma trajetória marcada pela Guerra e pelo conjunto de idéias e instituições que o evento ajudou a instaurar. A Proclamação da República seria em grande parte responsável não só pela perda do seu lugar de artista oficial, conquistado graças a sua extrema dedicação à Academia Imperial, como também pelas dificuldades econômicas a que estará exposto, que o obrigam a vender a sua arte para as massas, a partir do projeto dos panoramas.

Além das conseqüências da Guerra na vida prática do artista, o ideário que a acompanha pressuporia, em termos estéticos, a “apreensão dos efeitos realísticos de movimento” (Migliaccio). Porém, em Meirelles, a percepção lírica e a “sutil melancolia”, bem observadas por Alexandre Eulálio, são os fundamentos da sua pintura. E, embora ele persiga, nos quadros da guerra, o registro efetivo do acontecimento, é a convenção que os define, como vemos neste estudo. Ainda, o quadro que daqui resulta, apesar da antevisão, nos navios, das fornalhas fabris, é mais lírico do que épico. Gonzaga-Duque escreveria a respeito da Passagem de Humaitá, ressaltando-lhe, justamente, o seu misto de indefinição e documento: “(…) afinal, que impressão deixa no observador este quadro cheio de manchas negras e clarões vermelhos? Vê se unicamente no horizonte avermelhado, bojos de navios debuxados entre nevoeiros densos de fumo, e um céu enorme, sujo de nuvens, iluminado pela palidez do crescente e pelas chamas de fornalha que arde ao longe. Sem a menor dúvida, esse conjunto é pintado admiravelmente, mas falta-lhe uma figura que o anime. (…) Não obstante, fora injustiça dizer mal dessa obra, ela é o assunto. A esquadra brasileira transpôs Humaitá alta noite, e foi precisamente essa passagem que o governo encomendou ao artista”.

João da Cruz e Sousa, companheiro de seita de Gonzaga-Duque, se não leu essa crítica, ao menos deve ter visto o quadro, já que em “Navios”, um dos belos poemas de Missal, lança mão de termos semelhantes para dizer da relação da máquina com a natureza, ou melhor, da ação da natureza sobre a máquina. De acordo com o eu poético, “(…) no poente vermelho, flamante, dum rubro clarão de incêndio, os navios ganham suntuosas decorações sobre as vagas”. Ainda, “o brilho sangrento do ocaso, reverberando na água, dá-lhes uma refulgência de fornalha acesa, de bronze inflamado, dentre cintilações de aço polido. (…)” Ao final, “após o esmaecer da luz, a Via-Láctea resplende como um solto colar de diamantes e a Lua surge opaca, embaciada, num tom de marfim velho”.

A Guerra do Paraguai e o ideário positivista parecem surgir para Meirelles – e assim reverberam em Cruz e Sousa – pelo prisma da negatividade. Paradoxalmente, as referências formais e temáticas àqueles, presentes, em alguma medida, também neste estudo, dão-nos a sensação de um acontecimento inacabado, cuja síntese é a lua melancólica, pálida, opaca, e a noite, que dominam tanto a Passagem de Humaitá quanto o poema em prosa, contrastando com os navios espalhafatosos, mas solitários, sem a presença humana para lhes dar vida.

COLI, Jorge. A batalha de Guararapes de Victor Meirelles e suas relações com a pintura internacional. Tese de Livre Docência. Campinas: Unicamp, 1997.
ESTRADA, Gonzaga-Duque. A arte brasileira. Campinas: Mercado das Letras, 1995.
EULÁLIO, Alexandre. O século XIX. In. Tradição e ruptura. Catálogo da exposição, São Paulo, 1984.
MIGLIACCIO, Luciano. A arte do século XIX. In. Mostra do redescobrimento: Século XIX. São Paulo: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000.
CRUZ E SOUSA, João de. Cruz e Sousa: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

 

 

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