Estudo para Passagem de Humaitá

Ana Paula Cavalcanti Simioni. Doutora em Sociologia pela USP e docente do Instituto de Estudos Brasileiros-USP.

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Estudo para “Passagem de Humaitá”, Victor Meirelles de Lima

Em 1868, Victor Meirelles de Lima, então responsável pela cátedra de Pintura de História na Academia Imperial de Belas Artes, recebeu uma importante encomenda: a execução de duas telas de grandes dimensões visando a glorificação da Marinha por sua atuação na Guerra do Paraguai. O encomendante, Affonso Celso, no efêmero período em que esteve à frente do Ministério da Marinha, tencionando rebater as críticas que a instituição sofria, vislumbrou a construção de um museu, no qual fatos e personagens de relevo histórico figurariam em telas, retratos e bustos. Nele teriam destaque dois eventos nos quais a corporação obtivera vitórias significativas para o Estado brasileiro: o combate em Riachuelo (1865) e a tomada do ponto de resistência paraguaia mais emblemático, o Humaitá (1868); acontecimentos interpretados pelo artista em duas telas magistrais, Combate Naval do Riachuelo e Passagem de Humaitá (1), ambas realizadas entre 1868 e 1872 e hoje pertencentes ao Museu Histórico Nacional, localizado no Rio de Janeiro.

O Museu Victor Meirelles possui dois esboços para Passagem de Humaitá. Esses documentam a gênese da obra, revelando um percurso não linear ou evolutivo, mas caracterizado por intensos deslocamentos de sentido. Um deles, Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco (2) – provavelmente realizado in loco durante os meses em que visitou o local a fim de recuperar com fidedignidade a realidade a ser retratada – encontra-se “citado” no canto esquerdo da obra em questão. Entre esses estudos e a tela final existe um hiato. Estudo para Passagem de Humaitá é mais que um simples trabalho preliminar; trata-se de obra em si mesma, de uma representação capaz de sugerir novas perguntas e possibilidades de interpretação sobre os sentidos da guerra, e do heroísmo, para Victor Meirelles.

Na tela final, as figuras humanas estão de todo ausentes; nesse registro sombrio e distanciado do navio que atravessa a escuridão numa jornada lúgubre, o heroísmo cede lugar à melancolia. Ao passo que, em Estudo para Passagem de Humaitá a guerra é registrada como um encontro, infeliz, entre homens. Ao centro, apequenados, amedrontados, ainda que vitoriosos, a tropa brasileira luta para impor-se sobre o cerco de pequenas embarcações paraguaias. O heroísmo provém exatamente dos elementos de contingência com que o artista retrata o grupo de brasileiros: são poucos homens minguados, distintos apenas por suas fardas e parcas armas. Encontram-se circundados por dezenas de paraguaios, praticamente todos nus, sinal da “pouca civilidade” com que eram imaginados os adversários do Brasil, mas também de sua humildade, de sua pobreza, de seu anonimato. Aliás, anônimos são todos. A individualidade, espécie de pré-condição do heroísmo tradicional, lhes foi propositalmente negada pelo artista.

É possível imaginar que, com tais escolhas, Vitor Meirelles dialogasse com uma tradição de pinturas modernas francesas que conhecera em seu estágio como pensionista da Academia em Paris (1857-1860). A interpretação da guerra por meio de imagens de corpos anônimos vitimizados, exaltados plasticamente, com notável realismo no registro do sofrimento e da dor, perpassa obras de Gros, Géricault e Delacroix, exemplares da escola romântica. Obras que seguramente ele conhecia e admirava, como bem demonstram suas cópias de “Le radeau de la Meduse – Naufrágio da Medusa”, de Géricault, ou “Mulheres Suliotas” de Ary Scheffer, ambas presentes na coleção deste museu.

Estudo para Passagem de Humaitá assinala um certo pessimismo do artista diante do fato a ser retratado. Se a encomenda clamava por atos de bravura e heroísmo, sua resposta recalcitrava. O episódio fixado é simbolicamente um marco de conquista brasileiro, todavia, quase nada há a celebrar: a guerra torna a todos um pouco vitimas. Corpos agonizantes ocupam o primeiro plano e dividem espaço com tantos outros homens ainda vivos, mas igualmente anônimos, pobres, simples. Ao centro, longe do nosso olhar, estão os vencedores, também irreconhecíveis; estão rodeados pela massa de desafortunados que pretendem combater. A miséria humana cerca a todos. A melancolia que perpassa a versão final de A Passagem de Humaitá, geralmente atribuída a ausência de homens e heróis em sua figuração, aqui se reapresenta, de modo diverso, nos e por meio dos próprios corpos figurados.

Entre uma tela e outra, restam ainda perguntas: o que teria determinado mudanças tão radicais na composição? Talvez exigências dos encomendantes? Reações adversas de membros da marinha à interpretação inicialmente proposta pelo artista (a qual, cumpre assinalar, não diferencia os “heróis” como membros da infantaria ou marinha)? Ou mesmo, uma escolha deliberada deste por uma resposta pictórica original? Os corpos representados nessa tela e obliterados na obra final são os mesmos que figuram em outra grande obra contemporânea, Combate Naval do Riachuelo?Se sim, que implicações possuem tal trânsito de imagens? Há muito ainda a se pesquisar sobre Victor Meirelles e a produção oitocentista brasileira. O estudo dos “estudos” revela-se particularmente rico para a compreensão das escolhas, dos projetos, dos desvios e das realizações plásticas efetivadas nesse campo.

Bibliografia:

COLI, Jorge. “A alegoria da liberdade”, IN: Os Sentidos da Paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

MELLO, Jefferson Agostini. Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco. http://www.museuvictormeirelles.org.br/exposicoes/victor_meirelles/obraemperspectiva/jefferson_agostini_mello.htm

SILVA, Luiz Carlos da. Representações em tempos de guerra: Marinha, civilização e o quadro Combate Naval do Riachuelo de Victor Meirelles (1868-1872). Dissertação de Mestrado em História- Universidade Federal do Paraná, 2009.

VALLE, Arthur. Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco. http://www.museuvictormeirelles.org.br/exposicoes/victor_meirelles/obraemperspectiva/arthur_valle.htm.

estudo humaita

(1) Passagem do Humaitá, circa 1868-1872, óleo sobre tela, 268 x 435 cm. Acervo Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.

Esboço de Paisagem para

(2) Esboço de paisagem para Passagem de Humaitá: barranco, circa 1868-1870, óleo sobre tela, 51,0 x 71,8 cm. Acervo Museu Victor Meirelles.

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