Fabulações de Victor Meirelles sobre as paisagens da Desterro

Jacqueline Wildi Lins é Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atua em Fundamentos e Crítica das Artes, com ênfase em História e Teoria da Arte. Professora titular do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Vista parcial da cidade do Desterro - atual Florianópolis, Victor Meirelles de Lima, circa 1849, Florianópolis/SC, Aquarela sobre papel, 17,2 x 35,8 cm

Vista parcial da cidade do Desterro – atual Florianópolis, Victor Meirelles de Lima

O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha.
Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha. Seria preciso assim partir de novo desse paradoxo em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois. Inelutável paradoxo – Joyce disse bem: “inelutável modalidade do visível”,
num famoso parágrafo do capítulo em que se abre a trama gigantesca de Ulisses.

Georges Didi-Huberman

Os diversos modos de olhar refletem diferentes visões, já que a realidade visível se revela como uma possibilidade entre tantas. Cézanne pintou cerca de 80 versões da montanha de Santa Vitória. Como pôde ver tantas montanhas em uma mesma montanha? Certamente pelo olhar que seleciona e associa, que retém e elimina, que se apropria de uma realidade por meio de um filtro pessoal. Enfim, pelo olhar que, como uma marca durável, uma impressão, exclui toda a distância ao seu referencial porque precisa aderir para acontecer e para operar (DIDI-HUBERMAN, 1997, p. 3-4).
Victor Meirelles fabula (DELEUZE & GUATTARI, 1992) sobre as paisagens da Desterro mediante todas as possibilidades abertas pela sua experiência estética: da análise estrutural da natureza, por meio de uma pesquisa metódica da gramática acadêmica, até as sensações visuais filtradas pelo seu olhar que “vê o mundo e o que falta ao mundo para ser quadro e o que falta ao quadro para ser ele próprio, e na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas essas faltas” (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 19).
Em Vista Parcial da Cidade de Desterro, 1849, Victor Meirelles, então com 17 anos de idade, já revela a paisagem como reflexo da relação circunstancial entre o homem e a natureza. Essa obra não é somente um estudo de cores, de planos e de formas contidos em uma paisagem, mas sim a tentativa do artista de ordenação do entorno com base nas suas sensibilidades e percepções. A Desterro de Victor Meirelles é fruto do deslocamento sensível do amplo olhar do artista em direção à natureza.
É certo que o espaço da natureza oferece a possibilidade de olhá-lo de vários pontos de observação. Entretanto, as escolhas dependem das distâncias que a visão do artista alcança. Nessa aquarela de Victor Meirelles, o que se destaca aos olhos do observador são os telhados e as copas das árvores, que dão ritmo e profundidade à composição. O ângulo de visão do artista indica um modo só seu para descrever (utilizando o termo de Merleau-Ponty, 1999) a paisagem: a visão do alto que prolonga o alcance da vista fazendo enxergar um horizonte sem limites, pois “do alto pode-se enxergar até o limite da visão” (BLANCHOT, 2001, p. 67).
Nessa obra, o jovem Victor Meirelles já anuncia o que se tornaria a marca de toda a sua produção: o olhar panorâmico que fixa a poesia imanente aos espetáculos da paisagem. “Ele contempla a paisagem percebendo, mesmo sem a ajuda de um telescópio, o ‘próximo e o distante’. É um ver através da distância. Essa visão queria ver tudo, classificar, catalogar, abarcar, com a simples visada do horizonte, uma natureza que poderia ser apreendida ‘num piscar de olhos’.” (COELHO, 2007, p. 51). Em Vista Parcial da Cidade de Desterro todos os gestos vão em busca de um só motivo: “a paisagem em sua totalidade e em sua plenitude absoluta” (MERLEAU-PONTY, 1980, p. 119).

REFERÊNCIAS
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita. São Paulo: Escuta, 2001.
COELHO, Mário César. Os panoramas perdidos de Victor Meirelles: Aventuras de um pintor acadêmico nos caminhos da modernidade. Tese apresentada em sua forma final para a obtenção do título de Doutor em História Cultural. Florianópolis: UFSC, 2007.
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O que é filosofia? São Paulo: Ed. 34, 1992.
DIDI-HUBERMAN, Georges. L’Empreinte. Paris: Ed. Du Centre Georges Pompidou, 1997.
MERLEAU-PONTY, Maurice. “A Dúvida de Cézanne”. In: Chauí, Marilena (Org.). Textos Selecionados. Tradução Marilena Chauí. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1980.
______. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
______. O Olho e o Espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

 

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