Alex Gama – “Xilogravuras”

No universo contemporâneo somente sobrevive-se pela especialização. E Alex Gama é o especialista. Dentro da linguagem xilo nos informa sobre a infinita possibilidade da madeira gravada (que para ele é sem limites) revelando intimidades sequer imaginadas, através de sua exaustiva pesquisa… Especialista querendo superar-se o tempo todo, indo, devassando…Para narrar o seu enredo pessoal não existe nenhuma outra possibilidade. Os roteiros de Alex Gama não poderam ser pintados, nem desenhados, jamais. Nascem conceituados, pensados como xilografia. Igualmente acontece com Lívio Abramo, Goeldi, Fayga, Grillo e outros poucos gravadores de estirpe, sobressai a comovente coerência (que reverenciamos) entre criação e processo de realização. Não se restringe ao empréstimo da técnica para multiplicar os originais e alcançar mercado maior, há uma escolha identificada, ou melhor, não há escolha pis há uma predestinação. Alex Gama comprova em sua geração nosso único critério de avaliação sem fronteiras políticas, étnicas ou temporais. O gravador autêntico contem a impossibilidade de realizar-se em outras técnicas (existindo porém raras exceções no caso inverso), com a mesma força. Retomando o prognóstico antecipado de Marshall M. Luhan “The medium is the message” ou  como sabemos “the message”, pela contemporaneidade e internacionalidade da qualidade desejável… Há em Alex Gama uma fidelidade exasperante a este frágil fio condutor, secreto e sutil.

Sem título, 1990 (cid), Rio de Janeiro/RJ, Xilogravura colorida sobre papel, 61,5 x 56,0 cm, Acervo MVM

Sem título, 1990 (cid), Rio de Janeiro/RJ, Xilogravura colorida sobre papel, 61,5 x 56,0 cm, Acervo MVM

Uma aparente monotonia. Ad nauseum. Escondendo um milagre. Eis o milagre: a gravura de Alex Gama aonde começa? Certamente não dentro dela. Nem na extensão do papel suporte. A imagem faz com que revejamos o espaço da circunstância (ao redor, circundante) e daí voltemos à gravura, com recarga. Instala-se um processo de indução fisiológica como se fosse instaurado em nós um método de percepção. Somos arremessados num corredor interminável e aparentemente estreito de geometrias emocionais que deságua num surpreendente mar de desordens. Festas no espaço cibernético virtual ou caleidoscópio indígena? Não importa. Nada há mais provocante do que batalhas entre linhas condutoras, precisas de luz, resistências tramadas no fio de madeira. Enquanto Lívio Abramo pasteuriza o acaso Alex Gama faz dele o próprio protagonista da imagem. Para construir transparências vibrantes nada mais ousado do que o repique de rebarbas rasgadas no contrapelo do crescimento da árvore (detectável mesmo nos compensados), conduzidos por precários contrapontos, equilíbrios delicados, verticais, diagonais, paralelas versus plano cor invasor e flancos especiais penetrantes, fundos como volumes…

Nada a ver com os primeiros disciplinados gestos de Lygia Pape, final  dos anos 50 início dos 60 que nos remetiam delicadamente a Sophie Tauber Arp. Aqui sensações fisiológicas conduzidas pela respiração ofegante do buril ou goivas em V. Sempre há uma moral ilógica fluindo da imagem que tanto poderia ser maior ou menor (continuar ou ser interrompida) uma narrativa de momento onde o instrumento abandona ou não a possibilidade que se lhe oferece a cada segundo de rebater junções de planos. Ferir cheios ou vazios na pele da madeira, decepcionar expectativas pelo ar que se impregna, pelo ritmo de poros abertos em cada centímetro da obra. Esta epiderme é lanhada com a maior economia de signos. Todas as indagações possíveis, num furor inscrito de permutas geométricas repetem-se sempre. A profundidade e largura dos sulcos é similar, os acostamentos semelhantes mas a imagem de nossa reação é surpreendentemente variada. A própria linguagem xilográfica supõe domínio do universo cartesiano que estrutura a madeira. De sua morfologia celular, glandular até… O milagre acontece sempre que a intensidade criativa extrai somente o essencial já contido no suporte lignum. Descobrimos nas xilogravuras de Alex Gama sensações mágicas que nos fazem vivenciar o encantatório das obras de arte. Veículos de nossas idéias fluindo transportadas pelo suporte físico da imaginação satisfeita…

Maria Bonomi – São Paulo – Dezembro/96

Visitações:

Exposição aberta de 20 de agosto a 26 de outubro  de 1997.

Horários:

Aberto de terça a sexta-feira, das 10h às 18h.
Sábados das 10h às 14h.

Informações:

(48) 3222-0692
museuvictormeirelles.museus.gov.br
mvm@museus.gov.br

 

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