Carlos Asp

"Superfície Saturada", Carlos Asp, 2000, Florianópolis/SC, aguada de nanquim sobre papel kraft reciclado, 36,2 x 47 cm

“Superfície Saturada”, Carlos Asp

O Museu Victor Meirelles abre nesta quarta-feira, dia 20 de outubro de 2004, às 19 horas, exposição de Carlos Asp. Antes da abertura, às 18 horas, acontece o Encontro com o Artista, quando Asp falará sobre sua obra.

Carlos Asp começou sua trajetória nos anos 70, quando participou do JAC – Jovem Arte Contemporânea, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo e do Arte Agora I: Brasil 70-75, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro como artista convidado. Em Porto Alegre, fez parte do Nervo-Óptico, importante grupo da arte brasileira dos anos 70. Nos anos 80 participou do X Salão de Artes Plásticas da FUNARTE-Minc. Foi professor do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, e participou recentemente da exposição Um Território da Fotografia, em Porto Alegre.

No dia 22 de outubro, às 15 horas, acontece também no Museu Victor Meirelles um debate com a participação de Fernando Lindote e Raquel Stolf, que participaram da curadoria da exposição, e de Rafael Vogt Maia Rosa, que escreveu o texto crítico para o convite, além do próprio Carlos Asp. O debate pretende refletir sobre a produção atual do artista, contextualizando as suas experiências desde os anos 70.

Rafael Vogt proporá uma leitura da obra de Carlos Asp a partir de testemunho pessoal do artista e de uma aproximação de sua produção com vertentes como a arte conceitual. Fernando Lindote falará sobre as inscrições e re-inscrições de Asp no circuito de artes plásticas, fazendo um pequeno painel rememorativo das suas primeiras impressões de sua obra nos anos 70 até os dias atuais. Raquel Stolf abordará o processo de curadoria da exposição, focando os embaralhamentos, transbordamentos, subtrações e deslocamentos presentes na tentativa de selecionar/pensar alguns fragmentos da múltipla produção do artista.

Truth Camps: uma leitura e dois testemunhos sobre Carlos Asp

Existe em nosso contexto uma arte que prescinde, por suas próprias forças, dos suportes tradicionais. Ela não nega o meio, mas discute-o de uma maneira que o transforma em pretexto. Ela desmancha a narrativa para contar novas histórias. A obra de Asp realiza-se por uma aproximação irremediável entre arte e vida, de tal forma que só com um distanciamento forçado percebemos que se trata de um artista que pode também se utilizar de meios convencionais e que tem um currículo em que se encontram exposições realizadas desde os anos 60.

Em princípio, tendo a ver essas peças apresentadas agora como uma forma de crítica que opera com certo grau de anacronismo proveniente de uma inadequação estratégica: embora recentes e bidimensionais, elas denunciam, pelo material e conteúdo, um mal estar em seu tempo. São falsamente digitais, ultra-manuais e analógicas, feitas sobre um suporte que se descartaria precocemente antes da feitura. A herança aparentemente pop é submetida a uma verdadeira consubstanciação via correntes de algum modo mais afeitas a nosso contexto de fragilidade e pobreza. A linguagem plasmada da industria é ressemantizada através do já citado deslocamento temporal; algo datado que passa a ter assim uma força tremenda ao desmascarar processos em um tempo em que a institucionalização da obra vem antecedendo a própria produção. Em outras palavras, os títulos irônicos em inglês, Lies Camp, passam pelo crivo do que se Pode ou não fazer, em meio à Agonia nacional.

No refeitório, todos esperavam a apresentação de um grupo de dança folclórica. Políticos e a comunidade local. Quando viram-no subir no palco no lugar dos convidados estrangeiros, munido de um papel, esperava-se a leitura de um manifesto ou depoimento pessoal. Começou a ler o que soava como um texto em prosa, antigo, consagrado, parte no Novo Testamento.

Na mala, não trouxe roupas. Abriu o volume onde estavam empilhados dezenas de quadros. De madrugada, alguém bateu à porta do quarto. Era um conhecido trazendo outra mala, com mais quadros. No dia seguinte, dispôs todo o conjunto de obras, no chão do corredor do hotel. Poucos viram a exposição e não houve tempo para a publicação de texto crítico sobre a enorme importância de um artista como este.

Rafael Vogt Maia Rosa, 2004

Desenhos e outros

Entre os desenhos e gravuras de uma das tantas pastas de Carlos Asp, alguns papéis soltos (folhas de cadernetas que continham pequenos textos escritos à mão) sinalizavam tentativas de retenção de rasuras (o informe e a forma), catalogações de começos (embalagens e textos-imagens) ou breves movimentos de organização (de um processo construído diariamente, incessantemente, intensamente): just papers vazios, matrizes & originais (isso dá samba!), papel artesanal vazio, desenhos et alii.

Contatar e pensar a produção artística de Asp pressupôs essas tentativas, em idas e voltas em seu processo, em retornos e, principalmente, em atalhos. Se a expressão et alii indica que há pelo menos outros três (desenhos, textos, trabalhos, retalhos, projetos), selecionar alguns dos múltiplos trabalhos de Carlos Asp implicou operações de embaralhamento, subtração e deslocamento, pois cada trabalho (em memória ou ao vivo) pressupunha/desdobrava uma outra experiência, um outro texto, contexto, uma outra imagem.

Raquel Stolf, 2004.

 

Visitações:

Exposição aberta de 20 de outubro a 12 de dezembro  de 2004.

Horários:

Aberto de terça a sexta-feira, das 10h às 18h.
Sábados das 10h às 14h.

Informações:

(48) 3222-0692
museuvictormeirelles.museus.gov.br
mvm@museus.gov.br

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