Conservação de Acervos de Obras de Arte em Suporte Papel por Jacqueline Assis

A Preservação de Obras de Arte sobre Papel no Museu Nacional de Belas Artes

Jacqueline Assis

Primeiramente, eu gostaria de agradecer ao convite feito por Lourdes Rosseto ao Laboratório de Conservação e Restauração de Papel do MNBA, para participar deste Seminário sobre Conservação Preventiva de Bens Culturais. Isso me fez pensar nos significados da palavra PRESERVAÇÃO:

  • proteger de um dano futuro;
  • defender, resguardar;
  • preservar uma obra é não permitir que ela seja afetada por fatores externos a ela, os meios preventivos não são aplicados diretamente a obra, mas a sua volta, observando atuando e controlando as causas da degradação.

Hoje a preservação é feita de uma forma tão natural, ou seja, todo o processo de acondicionamento armazenamento, ou eventual restauração de uma obra de arte parece óbvio hoje, como se já existisse desde sempre. Foi então que me dei conta de que para que isso se tornasse uma rotina pra nós, foi preciso que houvesse uma conscientização da necessidade de se preservar esse acervo, provavelmente muito antes da existência das técnicas modernas de conservação e restauração serem pensadas.

O que quero dizer, é que hoje nós dispomos de um arsenal enorme de materiais, técnicas, bibliografias e manuais que nos ensinam passo a passo o que se deve fazer para acondicionar obras de arte sobre papel (de acordo com as diversas técnicas existentes); como higienizá-las; como guardá-las e em que lugar guardá-las; como agir em caso de catástrofes e etc.

Achei, que repetir o que dizem esses manuais, apesar de consultá-los com freqüência, se tornaria um pouco cansativo e repetitivo. E porque penso também que as propostas contidas nesses manuais, terão sempre que ser adaptadas de acordo com a singularidade de cada situação e momento determinados.

Pensei que seria mais interessante mostrar o trabalho que realizamos no Museu Nacional de Belas Artes, relatar como a nossa rotina, foi sendo construída no decorrer dos anos, desde que se passou a falar em restauração no Brasil na década e 60. Pensar que para que os manuais existissem hoje, muitas adaptações foram feitas e muitos erros e acertos cometidos para se chegar a uma conclusão muito simples: se a preservação não tivesse sido uma idéia cultivada desde essa época, provavelmente não teríamos o nível de controle tecnológico que temos hoje, e a tranqüilidade em dizer que essa ou aquela é a melhor maneira de se guardar determinado material, tendo a certeza de que esse objeto comprovadamente terá uma existência muito maior. Por isso, hoje temos tantos acervos preservados e disponíveis para outras gerações.

O acervo do museu nacional de belas artes, tem sua origem com a coleção de Dom João VI, acrescida do material didático da Missão Artística Francesa em 1816, formando assim a Pinacoteca da Academia Imperial de Belas Artes, que com a República se transformou em Escola Nacional de Belas Artes e atual Museu Nacional de Belas Artes.

O acervo do Museu tem hoje um total de aproximadamente de 14.329 obras sendo que desse total 63% do acervo, ou seja, 9.028 ítens são obras de arte sobre papel.

Na década de 60, conforme registros, a equipe do Museu Nacional de Belas Artes chefiada pelo professor Edson Mota no período da direção de Alfredo Galvão, restaurou apenas algumas obras em papel.

A preservação das obras do acervo do MNBA começou verdadeiramente na década de 70. Nesse período, sob direção de Maria Elisa Carrazzoni, foi criado o setor de arte sobre papel e as obras que se encontravam algumas enroladas outras dobradas em pastas de processos amarradas com barbante e armazenadas em armários de madeira e aço, foram sendo aos poucos retiradas a princípio para uma checagem do inventário, foram sendo aos poucos classificadas, higienizadas, e acondicionadas em envelopes de papel cristal e pastas de cartolina preta (por causa da luz) e armazenadas em mapotecas. Nesse período também foi criada, dentro da Seção de Restauração, a especialidade em papel. Com isso foram restauradas várias obras e foram também estabelecidas diversas normas de conservação para o acervo de papel. Nesse período, o acervo de papel em mapotecas foi instalado no segundo andar do prédio do Museu, onde hoje funciona a Biblioteca.

No início da década de 80, o Setor de Arte sobre Papel subdividiu-se, tendo sido criados o Gabinete de Gravura e a Seções de Desenho Brasileiro e Desenho Estrangeiro. Também a Seção de Restauração dividiu-se em duas, ficando a Seção de Conservação e Restauração de Pintura a Óleo e a de Papel após a restauração do Painel de Cícero Dias em 1982. O painel, estava enrolado dentro de um canudo de papelão em um depósito em Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro e era tido como irrecuperável. A incumbência de restaurá-lo foi dada ao museu na pessoa do diretor naquele período o Professor Alcídio Mafra de Souza e a sua restauração foi feita na sala do quarto andar onde hoje funciona a reserva de papel. Depois disso passou a ter um novo espaço e o status de Seção.

O Laboratório de Conservação e Restauração de Papel no decorrer dos anos passou por várias mudanças estruturais e de espaço físico, sempre se adaptando a um ou outro local, assim como a reserva de papel que passou a ocupar outro espaço no segundo piso, passando depois ao quarto piso. Vale lembrar que a coleção de papel vem crescendo com doações sucessivas criando-se assim um problema de excesso de peso e volume.

A Reserva Técnica do Museu foi construída em 1994 (com apoio de VITAE), no andar térreo e ocupa quase um círculo no primeiro piso do Museu. Essa reserva foi construída para abrigar o acervo de pintura a óleo e escultura ficando a construção de uma reserva de papel prevista mas até então não realizada. O que não se sabia quando a atual reserva de papel foi transferida para a sala no quarto andar era que o estado das cúpulas do museu era muito precário e foi se deteriorando até os dias de hoje, tendo que enfrentar por vários anos as chuvas de verão que levavam água da cúpula infiltrada até a reserva de papel obrigando-nos a afastar as mapotecas das paredes e mantê-las cobertas com plástico para que o acervo não fosse atingido. O problema com as chuvas no museu não é recente e apesar dos alertas dos técnicos nunca foi resolvido de forma definitiva. Mesmo assim foram feitos novos acondicionamentos do acervo, adquiridas mais mapotecas, são feitas inspeções periódicas, foram criadas normas de conservação e manuseio das obras (pesquisadores e usuários no caso da biblioteca) e novas regras para empréstimos de obras para que saíssem e retornassem das exposições nas mesmas condições.

No ano 2000, o laboratório foi reestruturado com o apoio de VITAE, foram adquiridos equipamentos novos e modernos que substituíram outros que se tornaram obsoletos. O laboratório se tornou mais seguro e funcional.

Em 2002, foi terminado o trabalho de digitalização de todas as obras restauradas (DONATO), que tem nos ajudado a controlar com maior precisão e rapidez, os tipos de problemas que ocorrem no acervo e resolve-los com maior eficiência.

Em 2003 com início da direção de Paulo Herkenhoff, uma política mais global de conservação vem sendo exigida e aplicada. A noção de que a preservação dentro de uma instituição museológica é responsabilidade de todos desde o pessoal que faz a limpeza, passando pelos técnicos até o diretor do museu, ou seja, o acervo é prioridade e tem que ser cuidado e protegido.

A idéia clara de que existem coisas básicas e urgentes (emergenciais) que precisam ser feitas, de que a preservação de um acervo começa pela segurança física do prédio que o abriga, que as instalações elétricas devem ser seguras, de que não haverão vazamentos ou infiltrações durante as chuvas. Esse é o que consideramos o ponto de partida fundamental dessa direção, que são as chamadas obras emergenciais, para as quais o museu recebeu verbas do Ministério da Cultura e acabou de licitar essas obras no final de outubro.

Dessas obras emergenciais, constam os seguintes itens:

  • Reforma das cúpulas do museu para dar fim as chuvas dentro do prédio.
  • Reforma de toda a parte elétrica para eliminar o risco de incêndio.
  • Ampliação da reserva técnica existente com a criação da reserva técnica para obras de arte sobre papel em ambiente adaptado e climatizado.
  • Troca de filtros e limpeza dos dutos da antiga reserva, com previsão de mudança no sistema de aeração.
  • Mudança do laboratório de Conservação e Restauração para duas salas que tem janelas para o pátio do museu, local que consideramos adequado por ser afastado da avenida Rio Branco, pela circulação do ar e iluminação natural.
  • Contratação de montadores especializados em transporte e manuseio de obras de arte, que por sua vez treinarão um grupo no museu, para que os acidentes com transportes internos de obras deixem de ocorrer.

Em resumo, o que quero dizer é que não é possível pensar a preservação longe de todos esses fatores. Não adianta restaurar, acondicionar adequadamente armazenar em mapotecas higienizadas, quando vivemos constantemente a possibilidade de que essas mapotecas sejam inundadas pelas fortes chuvas de verão, que um excesso de carga elétrica possa causar um incêndio. Enfim, que todo um trabalho que foi realizado e dinheiro gasto com o acervo podem ser perdidos num único momento.

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