Luiz Henrique Schwanke: Schwanke em sonetos por Charles Narloch

Schwanke em sonetos

Quando se discorre sobre a produção de Luiz Henrique Schwanke, é inevitável a associação aos perfis “linguarudos”, que conquistaram a crítica brasileira na década de 1980. Num segundo momento, vêm à memória as colunas de baldes e bacias, ou as composições com outros objetos plásticos de uso cotidiano. Aos que acompanharam sua produção, remete-se ainda ao uso freqüente da luz, característica que levou o artista à Bienal de São Paulo, em 1991.

Memórias à parte, atualmente se sabe – graças à abertura da família e aos esforços do Instituto Schwanke – que o legado do artista vai muito além de suas séries conhecidas. Cerca de cinco mil trabalhos foram criados por ele entre o final da década de 1970 e seus últimos anos de vida. Alguns só foram expostos após sua morte, em 1992. Muitos continuam inéditos, aguardando novos estudos e leituras.

Esta exposição reúne, pela primeira vez, uma parte pouco conhecida dos trabalhos de Luiz Henrique Schwanke, identificada como “sonetos”. Exatamente como faz com os perfis “linguarudos”, na década de 1980 o artista produz diferentes séries de pinturas ou desenhos sobre papel reaproveitado, onde insere catorze linhas dispostas como os versos de um soneto petrarquiano, com dois quartetos e dois tercetos. Entretanto, como uma meditação sutil da vida cotidiana, abstém-se de palavras ou letras.

Sua poesia, aparentemente silenciosa, é produzida em três momentos distintos, restritos a um intervalo de cinco ou seis anos. Em todos os sonetos, Schwanke mantém sua poética recorrente de revisitamento do passado e ressignificação das coisas ou fatos. Nestes trabalhos, faz isso ao apropriar-se da estrutura de um modelo literário secular e universal (o soneto), e ao usar materiais cuidadosamente selecionados que, por sua função, vêm carregados de forte conotação simbólica (decalques, páginas de revistas com anúncios publicitários, folhas de papel reaproveitadas ou tintas metálicas em pó).

Pela ausência da escrita, as linhas poderiam ter uma função meramente sintática, como uma forma-fórmula bem-assimilada, não fosse a possibilidade de conquistar sua função semântica, quando observadas nos diferentes contextos que se aplicam. Como uma qualidade Gestalt, os significados dos sonetos de Schwanke constroem-se não apenas na leitura dos dados representacionais de símbolos ou de linguagem (as catorze linhas, o desenho), mas também pelas forças compositivas (o papel, a cor, o conteúdo ilustrado nas folhas de revistas) que coexistem entre si. Trata-se de uma relação entre palavras inexistentes (ou signos que remetem a palavras) e idéias enquanto conceito.

Ao abandonar o uso das letras e palavras escritas, como na poesia concreta, Schwanke permite reafirmar ou rememorar a origem visual e simbólica da escrita. Afinal, se o desenho pode ser tido como uma forma de escrita, também a escrita pode ser tida como um conjunto de desenhos. E o desenho das linhas, por sua vez, à maneira concretista, repudia a referência figurativa e se emancipa do modelo natural de representação das coisas. Assim, o contexto constrói sua poesia.

Nos “sonetos” das séries iniciais, datadas de 1980, a materialidade e a geometria da linha e de seu entorno são valorizadas ao extremo, metodicamente, ora pelo uso da cor, ora pela raspagem ou recorte dos papéis. Não há nesta fase a necessidade de outros elementos simbólicos, já que a intensidade poética é concreta e absoluta. Diferente das primeiras, nas séries de 1985 e nos sonetos de decalques, o conteúdo imagético dos suportes ou elementos utilizados torna-se fundamental na composição e leitura de cada poesia.

No decorrer do século 20, muitos artistas visuais enfatizaram a visualidade e a materialidade da escrita em seus trabalhos. Os poetas, por sua vez, cada vez mais integraram os aspectos visuais permitidos pelos signos lingüísticos. Esse fenômeno é freqüente na atualidade, com a subversão dos limites entre as linguagens artísticas, que levaram à criação de trabalhos híbridos, de naturezas e categorizações múltiplas, intertextuais.

Pintura, desenho ou poesia, os “sonetos” de Schwanke navegam entre meios e desconstroem tênues limites, numa concepção de desmontagem da pureza modernista defendida por Clement Greenberg e questionada por Arthur Danto. Para esse último, o pós-moderno viola o maior imperativo do modernismo, de que cada arte deveria permanecer restrita às limitações de seu próprio meio.

Seria difícil a análise cuidadosa dos sonetos de Luiz Henrique Schwanke sem levar em conta as especificidades de sua obra como um todo. Mesmo assim, trata-se de exercício especulativo. A chave-de-ouro destas séries, decodificadora do significado global de cada soneto, parece estar mais uma vez ligada à experiência de vida do artista, sua emotividade, sua percepção aguda da realidade, e uma certa ironia na eleição de modelos referenciais de sua época. Como em outras séries conhecidas, a tônica parece ser o conflito entre a razão e o sentimento, entre o prazer e sua contenção.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.
(Bocage)

Charles Narloch, agosto de 2008.

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