Wilson Bueno

Os rememorantes

Também chamados de os duendes da noite, os rememorantes são animais dotados de uma inimaginável memória.
Vigiam o sono dos demais seres que habitam este nosso mundo acerbo, graças a uma característica que faz deles, dos rememorantes, únicos sobre o planeta – não dormem, nunca dormiram, e, porque sejam perenemente insones, podem penetrar nosso sono sem se deixarem contaminar por sua impossível matéria.
Os rememorantes possuem ainda outra qualidade essencial ao seu ofício – alcançam perscrutar, mesmo no sono mais embrutecido, os sonhos que ali morem e se movimentem com esta graça inquieta que costuma ser, dos sonhos, o seu maior triunfo.
Tudo imprimem à formidável memória, os rememorantes, e são eles que nos assopram ao ouvido excertos de histórias contadas por sonhos esquecidos ou mesmo o sanguinolento entrecho de um pesadelo para sempre soterrado pelo que havia nele de mágoa e escasso abraço.
Nada temem da natureza dos sonhos, e nem poderia ser de outra forma, pois, detalhe supremo, os rememorantes se alimentam deles e só nos dão a ver sobras sonhadas, lapsos, fragmentos, fluidos recortes e vagas esquinas de um sonho que, sabemos, com rigorosa certeza, ter sido bem mais do que o inútil sem nexo, por exemplo, de um olho boiando na água ou o simulacro de asas com que ainda uma vez tentamos e não conseguimos voar.
E porque se alimentem de nossos sonhos, vão por aí, ruminando-os o tempo inteiro, justamente naquelas manhãs em que, ingênuos, nos deixamos enganar, pensando que há muitas noites nada sonhamos.
É com eles que os rememorantes se refestelam, gordas jibóias de nossa talvez mais sublime quimera.

Os zembras

Ah, meu amor, os zembras!
Recordo que lutam sem trégua contra o mal, como se fosse possível vencê-lo, a ele, o mal que se engasta na pedra igual que irremovível e deletério limo. Meu amor, os zembras!
Quase disformes, à primeira vista não possuem sistema defensivo a exemplo de garras, chifres, peçonha ou dentes. Os zembras contam exclusivamente com a força de persuasão, não pequena, com que a Natureza os dotou a fim de que não pereçam cá neste vale de lágrimas.
São porém frágeis ao extremo e dificilmente alcançam vencer quem os intente destruir.
Estes farrapos tocados pelo vento, vês? São carcaças de zembras voando à solidão dos asfaltos desesperados, lembranças, espectros, meros papéis.

De Wilson Bueno, em “Jardim Zoológico” (Editora Iluminuras/1999) 

Aranhas

Tarde da noite as vigio, cuidadosamente, com a paciência de um voyeur taxideminista.
São tantas as pernas e os pêlos, horrendos ambos como sucumbir num fosso-de-elevador, que parecem guardar, elas, as aranhas, a vocação equilibrista de um polvo amestrado pelo Gran Circo Excélsior.
Imagino, daqui, como é que bate nelas o coração, e sofro por saber que, prontas ao bote, são como serpentes – o mesmo e rancoroso veneno que você destila, pelo canto do lábio, quando me joga na calçada.

Colibris

Iguais a estes, indefiníveis, a não ser pelo seu lado de vento, caídos da lágrima de um haikai de Kobaiashi Issa, os colibris são cor em movimento. Flores? O teu sorriso queima a tarde.
Iguais a estes não há nem tem nem se dá nome.
Existem outros, mas – sem exceção – todos perfeitamente explicáveis.

De Wilson Bueno, em “Manual de Zoofilia” (Editora Noa Noa/1991)

 

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