TRANS: formação cultural do presente

TRANS:
formação cultural do presente

Debora Cota

Apreciar imagens de uma futura exposição; estudar uma teoria apresentada em aula, atualizando o que já se conhece para entendê-la; comprar um livro recém-lançado ou encontrar um reeditado… o presente se apresenta como provisório, fragmentado, cambiante, é o passado, é o futuro. Enquanto movimento incessante, o presente pode sugerir o abstrato, mas também provoca, como o pensou Josefina Ludmer (nota 01), “formações culturais”, práticas e noções culturais atuantes em um momento. A formação cultural que aqui se encenará através de uma pequena rede é a do TRANS, que é o presente como inacabamento, como transitoriedade, como movimento, como meio, como entre.

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Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. (nota 02)

A Coleção TRANS da Editora 34, dirigida por Éric Alliez (nota 03), apresenta, em 1995, a edição brasileira de Mil platôs (1980), de Gilles Deleuze e Félix Guattari. O primeiro volume, dos cinco em que foi dividida a obra, expõe, como introdução, a teoria do rizoma. O rizoma em questão, diferentemente do rizoma botânico, não se define apenas por um tipo específico de caule, possui diversas formas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos, até suas concretizações em bulbos e tubérculos. Deleuze e Guattari propõem o rizoma como um sistema que não operaria através de binarismos na leitura da contemporaneidade. À arborescência, na qual tudo é subordinado a um ponto e na qual as multiplicidades variáveis se submetem ao uno (a lingüística de Noam Chomski é um exemplo citado pelos autores), Deleuze e Guattari propõem um pensar por rizoma: “Não é fácil perceber as coisas pelo meio, e não de cima para baixo, da esquerda para a direita ou inversamente: tentem e verão que tudo muda” (nota 04), afirmam os autores. Neste sentido, um rizoma seria uma espécie de linha sem começo e sem fim, é antigenealogia, é nomadologia e é a-centralidade e, antes de tudo, movimento (“e…e…e…”). Sendo um pensar pelo meio é TRANS, sem hierarquias, é conexão de linhas em constante movimento de construção, mas passíveis de desmonte, de modificação, pois visa à multiplicidade. Em Mil platôs Deleuze e Guattari apresentam a teoria do rizoma para se oporem aos limites da representação (decalque) e da significação (um dos princípios do rizoma é o de ruptura a-significante: “contra cortes demasiados significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas.” nota 05) mas à oposição que fazem à árvore gerativista, que trata da língua a partir do já estabelecido, ou ao decalque do inconsciente, que será interpretado pela psicanálise também a partir de uma lógica já dada, não propõem uma substituição da árvore pelo rizoma, o que restauraria o binarismo, mas pensam o rizoma na árvore: o rizoma é mapa e não decalque, mas “é preciso sempre projetar o decalque sobre o mapa” (nota 06). Portanto, o rizoma não descarta, mas se constitui no TRANS, no movimento que ele mesmo produz.

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É também à botânica, ou pelo menos às ilustrações dos livros didáticos de biologia que, inicialmente, as imagens de Mariana Palma (nota 07) remetem seus apreciadores. As obras para a exposição no Museu Victor Meirelles são aquarelas iluminadas por cores e formas as quais se vinculam às ciências naturais: plantas – folhas, brotos, raízes, caules – ou animais – chifres, pelos e seres humanos – mas, ao mesmo tempo, não são imagens de nada, no sentido de não mimetizarem nada em totalidade: não são plantas, não são animais, não são flores, não são bichos … Nas ciências naturais o que mais se aproximaria a estas aquarelas, se insistirmos nesta aproximação, são os processos naturais como o da germinação. A germinação se dá num corpo em estado de vida latente. É pura potência. É esta potência ainda não transformada num todo, é este momento de movimento, de transição, de TRANS, que está em jogo. Fica-se no indecidível, se a idéia é definir (nem mesmo as aquarelas apresentam títulos), ou então na ambivalência: é uma obra de arte já exposta em museu, mas ao mesmo tempo é uma imagem inacabada que poderia se estender além das margens que a encerram abruptamente, ou inacabada, pois focaliza o rizoma, o momento do movimento e não do término de um processo, de um ciclo. Parece, ao acentuar o meio e não a origem ou o fim, diagnosticar um estar e não um ser, tratar do presente: movimento, (efêmero/duradouro), culminância de vários tempos, indecidibilidade, inacabamento, indefinição, trânsito, meio, entre.

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ENTRE

Entre motores
E ruídos
(pio
dissonante

e seco
estilhaço)
o vôo do pássaro
cria

uma nova hipótese
de espaço

Régis Bonvicino (nota 08)

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César Aira, um dos escritores argentinos contemporâneos em maior evidência nos últimos anos é um escritor do meio, do TRANS, do procedimento. Seu livro El congreso de literatura (1999) narra a história de um escritor e cientista chamado César que, após se apossar de um tesouro que estava no mar há séculos, se coloca como missão clonar um gênio: Carlos Fuentes, o que seria a sua “Gran Obra”. Em Mérida (Venezuela), durante um congresso de literatura, César coloca em prática seu plano de clonagem, mas acaba provocando uma vertiginosa invasão de bichos de seda do tamanho de prédios de trinta andares. A abelha projetada para trazer uma pequena amostra de Carlos Fuentes, pousa na gravata azul e não na pele do escritor a ser clonado, o que resulta na multiplicação de bichos da seda azuis que vão tomando conta da cidade. Estes só serão destruídos quando o escritor/cientista apresenta diante de um dos monstros um “exoscopio” que acaba por dissipar todos os outros. A narração vertiginosa do eu escritor, o congresso de literatura, a “Gran obra”, que servirá para dominar o mundo com um exército de intelectuais “superiores” e poderosos, e ao mesmo tempo a clonagem, nos colocam diante de uma narrativa que põe em xeque a divisão entre crítica e ficção, pois enquanto se narra a história, se discute o como proceder. Uma narrativa do “como”, do procedimento, do como a narrativa se escreve, do como se escreve uma narrativa, como é possível perceber no fragmento abaixo:

Hasta aquí he venido haciendo un retrato del personaje que me representa en términos más o menos justos y realistas, pero parciales. Hasta aquí, podría tomárselo por un científico frío y lúcido, que redacta una memoria razonable, en la que hasta las emociones toman un tinte helado… Para completar el cuadro, habría que pintar un fondo de pasión, tan vívida y excesiva que hace temblar a todo el resto. (nota 09)

A ênfase no procedimento reaparece em “La nueva escritura” quando César Aira afirma: “(…) que la “obra” sea el procedimiento para hacer obras, sin la obra. O con la obra como un apéndice documental que sirva sólo para deducir el proceso del que salió” (nota 10). O procedimento pressupõe movimento, concatenações, práticas, está antes da obra, está antes do fim. É um TRANS, pois é um meio, um meio pelo qual se constrói, se desmobiliza, se conjuga … E, no caso de Aira, sendo a obra o procedimento ou sendo um procedimento sem obra, a própria obra é o TRANS.

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O livro El congreso de literatura, do escritor argentino César Aira, as aquarelas da pintora Mariana Palma, a teoria do rizoma dos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari e o poema “Entre”, de Régis Bonvicino não apenas encontram-se no presente, são noções e práticas atuantes neste presente. A idéia de meio, de entre, de inacabamento, chamada aqui de TRANS, conformou uma pequena rede que deixa em evidência tal “formação cultural”. Nesta, portanto, estão em jogo a crítica à redução propositiva do binarismo, à representação como mimese do real, à definição que se quer limitadora, ou melhor, a crítica aos limites, mas também o meio como uma opção não excludente que leva o escritor trabalhar na imanência dos próprios procedimentos literários, que borra os limites da crítica e da ficção, que vê a imagem como movimento. O TRANS é matéria do presente.

Notas

* Doutoranda em teoria literária UFSC – CNPq.

1) Cf: “Temporalidades do presente”, Margens, margenes, dezembro de 2002.

2) DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. “Introdução: rizoma”, in: Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, Vol. 1, p. 37.

3) Sobre a Coleção TRANS Éric Alliez afirma: “(…) TRANS quer dizer transversalidade das ciências exatas e anexatas, humanas e não humanas, transdisciplinaridade dos problemas. Em suma, transformação numa prática cujo primeiro conteúdo é que há linguagem e que a linguagem nos conduz a dimensões heterogêneas que não têm nada em comum com o processo da metáfora. (…) Sob a responsabilidade científica do Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, TRANS vem propor ao público brasileiro numerosas traduções, incluindo textos inéditos. Não por um fascínio pelo Outro, mas por uma preocupação que não hesitaríamos em qualificar de política, se porventura se verificasse que só se forjam instrumentos para uma outra realidade, para uma nova experiência da história e do tempo, ao arriscar-se no horizonte múltiplo das novas formas de racionalidade.” (Nota do diretor – Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1)

4) Op. Cit. p. 35.

5) Id. Ibid. p. 18.

6)Id. Ibid. p. 23.

7)Mariana Palma recebeu, em 2003, os prêmios Exposição Individual do SESC Ribeirão Preto e Aquisição do Museu de Arte Contemporânea de Campinas e em 2005 e 2006 foi premiada pelo Museu de Arte de Ribeirão Preto e pela Casa do Olhar, de Santo André, respectivamente. Formada em Artes Plásticas pela FAAP, a artista plástica já realizou exposições individuais em Florianópolis, Recife, Curitiba, Ribeirão Preto, Campinas e São Paulo. Só em 2006, Mariana participou de sete coletivas. Antes disso, suas obras já puderam ser vistas em 21 exposições coletivas.

8) O poema “Entre” está publicado na antologia: Desencontrários = unencontraries: 6 poetas brasileiros, que possui projeto e coordenação editorial de Josely Vianna Baptista, projeto gráfico e desenhos de Francisco Faria e versões dos poemas para o inglês feitas por Regina Alfarano, e.t al..

9) El congreso de literatura, p. 20.

10) “La nueva escritura” .

Referências bibliográficas:

AIRA, César. La nueva escritura. Disponível em <www.literatura.org.> Último acesso em 30 de novembro de 2006.

__________ El congreso de literatura. Disponível em <www.wordswithoutborders.org> Último acesso em 20 de novembro de 2006.

BONVICINO, Régis. Entre. In: ASCHER, Nelson. et. al. Desencontrários = unencontraries: 6 poetas brasileiros. Curitiba: Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba/FCC – Associação Cultural Avelino Vieira / Bamerindus, 1995.

DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. “Introdução: rizoma”. In: Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Aurélio Guerra e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995. Vol. 1, p. 11- 37.

LUDMER, Josefina. Temporalidades do presente. In: Margens, margenes, dezembro de 2002.

 

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