De hóspedes, morcegos e borboletas: Ana Elisa, Wilson, Régis, Annette

Rita Lenira de Freitas Bittencourt
Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e
Professora Adjunta de Teoria Literária na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A ciranda ou cirandinha é uma dança de roda infantil, de origem portuguesa. No Brasil, é também executada pelos adultos, principalmente no nordeste, acompanhada por cantos e trovas. Começa com uma roda pequena, que vai aumentando, à medida que as pessoas chegam para dançar, abrindo o círculo e segurando nas mãos dos que já estão dançando. Quando a roda atinge um tamanho que dificulta a movimentação, forma-se outra, menor, no interior da roda maior.

Ana Elisa Dias Baptista, Ciranda

Ana Elisa Dias Baptista, Ciranda

Os participantes da ciranda são denominados de cirandeiros e cirandeiras, havendo também o mestre, o contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda. Voltados para o centro, os dançadores dão-se as mãos e balançam o corpo à medida que fazem o movimento de translação em sentido anti-horário. A coreografia é bastante simples: no compasso da música, dá-se quatro passos para a direita, começando-se com o pé esquerdo, na batida forte do bumbo, balançando os ombros de leve no sentido da direção da roda. Há cirandeiros que acompanham esse movimento elevando e baixando os braços de mãos dadas. O bumbo, tambor ou zabumba, mineiro ou ganzá, maracá, caracaxá (espécie de chocalho), a caixa ou tarol formam o instrumental mais comum de uma ciranda tradicional, podendo também ser utilizados a cuíca, o pandeiro, a sanfona ou algum instrumento de sopro.

Ao mestre cirandeiro cabe “tirar as cantigas”, improvisar versos, tocar o ganzá e presidir a brincadeira. Ele utiliza um apito pendurado no pescoço para ajudá-lo nas suas funções. O contra-mestre pode tocar tanto o tambor quanto a caixa e substitui o mestre quando necessário. As músicas podem ser as já decoradas, improvisadas ou até canções comerciais de domínio público transformadas em ritmo de ciranda. Pode-se destacar três passos mais conhecidos dos cirandeiros: a onda, o sacudidinho e o machucadinho. Alguns dançarinos criam passos e movimentos de corpo, mas sempre obedecendo a marcação que lhes impõe o bumbo.

De natureza comunitária e popular, a ciranda é uma dança que não estebelece limites para o número de pessoas que dela participam.

1. Meia volta

BORBOLETAS
Nada aprendemos com elas que não seja o vôo
fugaz da flor tocada pelo vento, pluma, se a borbo-
leta é azul e fere a manhã incendiada de sonetos.
Nenhuma rima contudo, mesmo a mais rara,capaz
de captar, num dia ateu, o terror do êxtase.
Tem sido assim o jeito que vamos, marcados
para morrer no esplendor do sinistro, essa vida
alheada, essa vida breve cuja duração posso medir,
acho que posso, só com olhar o mostrador do meu
relógio, e antever a tua cara rindo, a loucura feroz
do tempo em nós andando.
Uma borboleta só não basta para atear cor ao
vasto céu das tardes melancólicas da floresta.

Wilson Bueno, Manual de Zoofilia

Os limites zoofílicos de Wilson Bueno são marcas de ultrapassagem: além de anacrônicos e desesperados lobisomens, tocados pelo destempero passional, seu manual inclui os dragões, as lagartas, os dinossauros, os camaleões, os anjos e as crianças. Todos são membros de um zôo em mutação permanente, à beira do vir-a-ser, que anuncia, em cada forma, uma outra, ou outras, e assinala um recomeço em identidade alternativa, ou, quem sabe, um fim inexorável. Possuidores da chave dramática do tempo, eles participam da transitoriedade intrínseca das borboletas.

O fim da lagarta, começo da borboleta pode não bastar, sendo sua existência e cores tão fugazes, para atenuar o luto e a melancolia da morte. Supostamente, se viessem em bando, sim, fariam diferença, povoando toda a floresta de arco-íris e parando o tempo à beira da eternidade, um instante em suspensão, para sempre inalcançável no presente. Na sua radical fragilidade, entretanto, o que mais borboletas e lobisomens ensinam, para além do tédio e da melancolia que os tornam visíveis, é a noção dos limites que os constituem e os sentidos do fim que se desvendam a partir de sua curta vida.

Os bestiários de Bueno, que elaboram uma série de corpos monstruosos, alguns entre o humano e o animal, conectam-se, desde o heterogêneo, aos outros deslocamentos com os quais o escritor opera na linguagem, e que fazem passar, como na novela Mar Paraguayo (São Paulo: Iluminuras, 1992), sob a porosidade da língua oral, os traços de outra língua, o guarani, instituindo uma espécie de translingüismo, que produz um efeito de atração irresistível e parece emanar de uma fonte secreta, – mesmo quando explicitada em “elucidários”, glossários finais, limiares. Na trama lingüística desta novela figuram as correspondências e os desacertos entre os vocábulos em português e espanhol – que elaboram o “portunhol” – e este outro idioma, o guarani, praticamente desconhecido hoje em dia.

Comparada aos sons silenciosos das formigas, a entre-língua trabalha subterraneamente como os demais animaizinhos que, ou são noturnos ou vivem às escondidas, povoando a escritura: aranhas, cobras, escorpiões, moscas, besouros, mariposas, morcegos e vermes. É também, em grande medida, responsável pelo lirismo exacerbado, com ecos míticos, que explode nos momentos de maior dramaticidade, quando a personagem, um ser híbrido e transtemporal, misto de Medéia, Madre Grande, Madona, Macunaíma, Índio, Pajé, Tupã, mergulha, em suas buscas desesperadas, na vertigem da linguagem, num zôo de signos. Nestes momentos, as formas se sobrepõem ao conteúdo e o antecedem.

2. Volta

ME TRANSFORMO
Me transformo
outra janela –
outro
que se afasta e não se reaproxima

nas desobjetivações e reativações,
nas linhas e realinhamentos
outros
me atravessam

morto de ser
coisas perdem sentido
expressões figuradas como
ossos de borboleta

me transformo
na observação
de uma pétala

Me transformo
a mesma janela –
outro
que não se afasta

Nas objetivações
alinhamentos
e linhas inexistentes
iguais me repassam

Retrato desativado,
taxidermista de mim mesmo

Regis Bonvicino. Ossos de borboleta

Nas páginas finais do livro Ossos de borboleta, do poeta Régis Bonvicino (São Paulo:34, 1996), o professor e crítico Raul Antelo analisa os poemas que o compõem como uma reinscrição da instância da letra: “uma letra que está entre e que compele, insta, ao histórico e ao instantâneo”, que “descansa na atividade de uma grafia que tenta captar as contingências da história sem se restringir aos marcos de uma verdade revelada, mas desenhando, porém, uma figura em arabesco”. Arabesco palindrômico, diga-se de passagem, configurado em poemas que, desde o título do conjunto, alinham, na palavra “ossos”, “os” e “esses” em permanente ciranda.

Por outro lado, a proximidade com o contingente, a simpatia pelo efêmero, tão bem expressas, pelo poeta Régis na figura da borboleta, podem, ainda segundo o texto de Antelo, intitulado Limiar, estender-se à arte: “Há na borboleta um implacável transformismo que se lê como traço do borrado e do baldado porque – são ossos do ofício – a borboleta, belabeleza da arte, oscila entre dois mundos. Atravessa o espaço da técnica, mas sua crise e seu grito provêm da grade do tempo administrativo, a borra burocrática que elide ou deleta sua forma”. Torna-se participante de um jogo instável, muitas vezes dedicado a figurações de ausência, ou ao inventário do paradoxal simultâneo.

Nas oscilações entre “Me” e “me”, na basculação entre a mesma janela e outra, entre o corpo orgânico que pulsa e aquele que resulta do trabalho do taxidermista, há um desenho sutil de “linhas inexistentes” que se jogam para fora – fora da completa subjetivação, fora da total coisificação. Para um limiar, onde a linguagem opera por uma espécie de suspensão precária, temporária, indecisa: lá onde a borboleta pode continuar a ser borboleta e ao mesmo tempo ter ossos, subvertendo todas as taxionomias.

3. Volta e meia

Annette Messager. Boarders at Rest ou Le repos des pensionnaires (1971-1972). Reprodução fotográfica de instalação

Annette Messager. Boarders at Rest ou Le repos des pensionnaires (1971-1972). Reprodução fotográfica de instalação

A obra da artista plástica Anette Messager é criada com elementos reciclados do cotidiano, aproveitando materiais inesperados: tecidos, lápis coloridos, pássaros e outros animais empalhados, fotografias e recortes. Ao trabalhar com fragmentos e explorar as dualidades civilização/natureza, homem/mulher, arte/vida, com morbidez e humor, a artista, que detesta totalidades e modelos arquiteturais, opta pelo avesso, tornado-se a hospedeira do outro: do morto, do minúsculo, do menor, do que já não tem mais carne.

Boarders at rest, um de seus primeiros trabalhos, por exemplo, é montado com pequenos animais empalhados e vestidos com pulôveres, mantas, cachecóis minúsculos, tricotados com linha colorida. O interesse de Messager por animais mortos data de um dia, em Paris, anos atrás, quando ela encontrou um pardal congelado na calçada: “Eu queria cuidar dele. Eu comecei a vesti-lo…como um bebê.” A instalação conta com uma profusão de passarinhos, enfileirados, como numa vitrine ou numa espécie perversa de berçário, dúzias deles que parecem dormir pacificamente, protegidos do frio. Em outras montagens, ela mistura os animais taxidermizados, de espécies e tamanhos diferentes, a carinhosos brinquedos de pelúcia, às vezes recortados em forma de coração, e também a reproduções fotográficas, geralmente em preto e branco.

Estes trabalhos que inicialmente são arranjados no espaço do ateliê ou do museu muitas vezes são fotografados, o que gera um segundo trabalho, suplementar, que ocasiona um afastamento ainda maior da materialidade biológica que os suportam em direção ao âmbito mais conceitual da linguagem.

A artista já adotou alter egos identificatórios do tipo: “Annette Messager Practical Woman, Annette Messager Collector, Annette Messager Trickster, Annette Messager Artist”. E entre suas primeiras peças, Album-collection no.1, consta The Marriage of Mademoiselle Annette Messager, um livro de recortes de casamento com fotos de jornais, nas quais o nome de Messager substitui o das noivas. Na mesma linha dos álbuns, estão os “provérbios”, peça de 1974, intitulada Ma collection de proverbes, um grupo de ditados a respeito das mulheres, recolhidos do folclore francês e bordado em pequenas peças de roupa:

femme qui gagne, poule qui pond, sont le diable en la maison
Mujer que gana, gallina que pone, son el diablo en la casa
the woman who wins, the hen that lays, are the devil in the home

quand le dieu se fit homme, le diable s´etait deja fait femme
Cuando Dios se hizo hombre, el Diablo ya se había hecho mujer
when god became man, the devil has made himself already woman

femme rit quand elle peut et pleure quand elle veut
La mujer ríe cuando puede y llora cuando quiere
woman laughs when she can and weeps when she wants

Alguns destes “provérbios” são chocantemente misógenos e, paradoxalmente, ainda de uso corrente. Com sua economia característica, a artista exibe a dupla superfície do familiar, o detalhe suave do bordado e as maldades que se escondem em seu interior, tão próximas e tão banais que continuam despercebidas. A versão trilíngüe, composta por onze bordados, foi exposta na Bienal de Veneza, em 1997 e, mais recentemente, na Bienal de Sevilha, em 2004.

A caça aos provérbios se integra à perspectiva estética de explorar os interiores, liga-se à preocupação de apontar, nos desacertos da linguagem, a marca de um lugar escondido, por onde ela falha e escapa. Diz Messager: “Queria trabalhar com coisas íntimas, livros, segredos, coisas familiares que não são materiais artísticos”, e, apontando para a influência da literatura: “meus modelos foram mais mulheres escritoras que artistas”, ou seja, seu fazer exige a inscrição prévia na série dos que redesenham o gesto de delito: “todo o meu trabalho é uma apropriação, uma possessão”.
Seus procedimentos assinalam operações de trânsito, do corpo à foto, da morte à vida, dos álbuns de formas populares, visuais e escritas, aos desdobres um tanto apáticos de uma crítica que faz aparecer um feminino perverso, ironizando os lugares do gênero. Suas montagens mais recentes exibem órgãos internos do corpo humano, desenhados e fabricados como linha de montagem, utilizando material sintético e emborrachados, que, ao mesmo tempo, guardam relação com as ordens da natureza vegetal e animal. Sobre estas conexões, a artista comenta: “Oh, é como desenhar uma floresta…a que está bem, que é o que é, onde tem tudo, é como se ela vomitasse tudo o que se encontra em seu interior! Os intestinos que eu fiz, eu gostaria que eles parecessem a almofadas, a bonecas. Os órgãos suspensos são a maternidade, um feto que parece uma boneca. Isso faz guardar uma distância, um resto da ordem do imaginário. O que me interessa é um fantasmático que está lá, em nós, não o fantástico distante, o que me interessa, está em nós mesmos”.

Em geral, essas produções, conhecidas exclusivamente em séries, declinam a utilização do fragmento fotográfico como uma entrega do princípio de identidade e tendem para um desejo de hibridização que as montagens de animais empalhados e de pelúcia vão decupar. Seccionados, dissecados, estes últimos trocam o objeto transacional da infância à idade adulta e se transformam em animais fantásticos, jogando sobre a bipolaridade repulsão/atração: “Je suis la colporteuse de chiméres, la colporteuse des rêves simiesques, des delires arachnées”, afirma a artista.

Chimères (1982-84). Reprodução fotográfica

Chimères (1982-84). Reprodução fotográfica

Segundo os críticos, Messager justapõe o sinistro e o doméstico, domesticando um e tornando o outro perigoso. Em um clima de inquietante estranhamento lúdico, a Messager mensageira propõe mais promessas e sonhos que propriamente mensagens. Ou melhor, torna-se a portadora, a hospedeira, da indecibilidade das mensagens.

4. Volta

Ana Elisa Dias Baptista, Morcego

Ana Elisa Dias Baptista, Morcego

A Ciranda de Ana Elisa Dias Batista nada tem de tradicional. Nela, não se canta e dança a vida, mas a sobrevida, a sobra, o resto, o suplemento. E se, numa disposição também cirandeira, este texto tenta juntar, na mesma dança, outra artista plástica e dois poetas é tanto por identificar similaridades quanto para assinalar diferenças. O que Wilson Bueno, Regis Bonvicino, Annette Messager e Ana Elisa Dias Baptista mais têm em comum é a disposição para serem hospedeiros contemporâneos do vazio, da ausência. Como no poema de Bonvicino linhas existentes e inexistentes igualmente os repassam, e, no conjunto, seus trabalhos dedicam-se ao transformismo, ou seja, atravessam, transpassam hibridizam a forma praticando um tipo de violência delicada, perversa e leve.

Enquanto, por exemplo, com zelo quase maternal, Messager veste os seus pequenos seres taxidermizados e os hospeda no ambiente familiar de seu ateliê, Ana Elisa, nos traços da gravura ou na expectativa que acompanha a decomposição dos corpos, os despe, os retira do mundo de sua chácara, e os exibe deslocados em tinta, nos lugares do vazado, do esqueleto, da asa quebrada, do pedaço, dando, se é possível, à morte, um índice ainda maior de infinito e à vida, um de quimera.

Ana Elisa Dias Baptista, sem título.

Ana Elisa Dias Baptista, sem título.

Borboletas e lobisomens, em Wilson Bueno, fazem a passagem entre – mundos, pertencem ao papel e ao imaginário, à letra impressa e ao enigma, às vezes são perguntas, às vezes são matéria. Frutos da zoofilia, anunciam o jardim zoológico. Os animais de Ana Elisa, seus morcegos e aranhas, os insetos amontoados, enfileirados, em círculos, dramatizam a contra-ciranda da arte do presente em suas aporias básicas. Para além de qualquer zôo, série, coleção ou combinação, dançam uma ciranda ao contrário.

A exposição da artista, Ciranda, que está em Florianópolis, no Museu Victor Meirelles, de 28 de fevereiro a 19 de abril de 2007, poderia, então, desde o título, ser admirada a partir da labilidade do discurso irônico, que assegura uma dupla possibilidade de leitura.

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