O Cheiro Adocicado da Morte e a Ciranda de Ana Elisa Dias Baptista

Ana Lucia Vilela

Exposição de Ana Elisa Dias Baptista, chamada Ciranda, no Museu Victor Meirelles.
Gravuras em metal, imagens de delicados insetos e pequenos animais inertes, porque mortos, gravadas pacientemente; formas circulares compostas de linhas retas curtas e rápidas. Em quantidade fazem formas vazadas de luz. Incorpóreas ou abruptas, muitas delas. Linhas descontínuas para compor a morte. Mas uma morte que se fixa ao papel como o cheiro se fixa na narina.
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Entrei em minha casa como se fosse de outro. Cheiro adocicado e penetrante que não reconheci como aquele resultante da mistura entre fluidos e vestígios do meu corpo, das comidas que cozinho, dos meus objetos e dos insetos e outros bichos visitantes e residentes que povoam um espaço que disputamos. Este cheiro eu mesma não percebo, somente reconheço na sua diferença ao das outras casas.

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Há também gravuras em que os animais e insetos não são arranjados por linhas mas por vazios. Espaços deixados no negativo da forma. Branco do papel. Apenas o que está fora define a forma do que está dentro. Apenas uma ausência, um buraco. Mas não processo, não putrefação. Não há cheiros nas gravuras. Ana Elisa acompanha os processos das mortes. Guarda os bichos, espera apodrecerem para restarem apenas ossos ou carcaças. Acomoda insetos em suas gavetas. Depois nos oferece aquilo que repudiamos. Mas que talvez até aceitemos pendurar nas paredes.

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Guardo coisas esquisitas. Parte delas não uso. Ou uso. Um estopim que detona ligações entre cenas, pessoas, lugares, atividades, presenças, ausências. O que você guarda? E porquê? Que coleções? Que critério liga um objeto a outro, a uma lembrança?

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Gravura em metal. Pegue uma placa de metal, cobre, geralmente, e um buril que é uma ferramenta pontiaguda. Fira o metal. Invista contra ele. E ele cede deixando vincos. Marcas de memória. Fazer de minúcias e paciências como o trabalho da (de)composição de/com os pequenos animais que se “apresentam para o serviço” como disse a gravadora. Copie seus gestos prensando um papel sobre a superfície metálica entintada.

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O doce cheiro de morte recente transformou-se; depois de estabelecida no corpo invade forte e inegociável todo o ambiente, a morte. Sabe-se sua origem. Procurei, por um tempo, o lugar desta morte em minha casa. No parapeito da janela, uma lagartixa, que peguei – com a mão enfiada em saco plástico – e joguei longe no quintal de modo que continue seu processo sem me aborrecer e invadir. Persistiu ainda em minhas narinas.

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