As simetrias da morte

Victor da Rosa
ensaísta e bacharelando em Letras pela UFSC.
Este texto foi escrito a partir das discussões realizadas no grupo
de estudos um ponto e outro, do Museu Victor Meirelles.
Outros de seus textos podem ser lidos em
(www.literaturamenor.blogger.com.br).

Jean Baudrillard, em seu ensaio O sistema dos objetos, fala sobre a lógica do colecionismo enquanto um efeito de paixão. Escreve: “Admitamos que nossos objetos cotidianos sejam, com efeito, os objetos de uma paixão, a da propriedade privada, cujo investimento afetivo não fica atrás em nada àquele das paixões humanas” Em outro momento de seu ensaio, Baudrillard ainda escreve: “A posse jamais é a de um utensílio, pois este me devolve ao mundo, é sempre a de um objeto abstraído de sua função e relacionado ao indivíduo”.

Dessa maneira, imagino Ana Elisa como se fosse uma colecionadora de mortes. Em seu ateliê, localizado numa pequena chácara distante 40 quilômetros da cidade de São Paulo, a artista guarda centenas de bichos mortos, principalmente insetos – das mais diversas espécies, tamanhos, formas – para prolongar e observar este estado limite da desaparição, chegando a registrar, muitas vezes, através do desenho, os diversos processos de decomposição. O que resta destes bichos, o que eles ainda podem oferecer à artista enquanto experiência, presença – suas mortes e seus últimos vestígios, portanto – é recuperado pela artista para a construção de suas arquiteturas visuais: “(…) Desenhei e desenho para não perder”.

A artista realiza, através do desenho, um movimento mesmo de recuperação da morte. “Nas cidades as mortes têm locais outros: ocultos. O cachorro atropelado logo é retirado, o pássaro morto é logo varrido e a barata esmagada desce água a baixo com a maior rapidez possível. A morte é mediada pelos hospitais, nossos mortos vestidos por funcionários e entregues ‘to-go’ nos velórios”, diz Ana Elisa. Dessa maneira, é a partir desta falta que a artista se propõe a uma experiência que, por sua vez, desencadeia todo seu trabalho visual de “Ciranda”. Estas cirandas, 33 gravuras em metal que estão em exposição no Museu Victor Meirelles desde quarta-feira, são compostas por uma série que a artista chama de “Gabinete de Maravilhas”, alusão ao colecionismo do oitocento – idéia que a artista persegue desde que trabalhava somente com o desenho.

O procedimento de Ana Elisa, que chama de “imaginação vagante”, consiste, na maioria das vezes, como diz a própria artista, em esperar “os bichos se apresentarem para o serviço”. Os bichos são capturados não através de um olhar treinado da artista, mas através de aparecimentos casuais – é uma relação com o próprio tempo que Ana Elisa constrói: de espera, distração. A artista, então, acumula todos estes bichos em inúmeros armários e gavetas – gavetas que também aparecem como moldura de seus quadros no resultado final do processo – para desenhar e gravar em outras superfícies, buscando soluções visuais e critérios muitas vezes delirantes que suspendem, portanto, qualquer elaboração racional sobre seus “objetos”.

Se Baudrillard escreve, portanto, que o procedimento do colecionismo consiste na suspensão da função dos objetos colecionados para ligar-se somente ao fato de tais objetos estarem relacionado com o indivíduo, o colecionador, Ana Elisa constrói toda sua coleção a partir de um único critério, talvez sua maior obsessão – a morte. Quero dizer, a organização que a artista impõe a todos os bichos e insetos que acumula sugere pensar, de início, numa relação científica e racional, mas é preciso suspender esta aparente racionalização para sugerir uma relação que toca a loucura, principalmente pelo fato de que este acúmulo figura enquanto repetição excessiva e delirante – para Michel Foucault “toda ordem humana é o limite da loucura”.

Num outro momento, porém, quando Ana Elisa grava a imagem destes bichos na matriz, a morte destes bichos, insetos, tudo parece ser invadido por uma estranha animação. A morte, agora, numa relação inversa com o desaparecimento, figura num movimento tautológico de ciranda – a morte parece ser reanimada pela força visual do excesso, da circularidade. Se os corpos dos insetos, após a morte, estão fadados ao lento desaparecimento, na gravura aparecem inscritos no tempo e na superfície do quadro.

No instante em que olha os quadros, aquele que vê ativa a memória a partir da referência à ciranda – música, dança, circularidade, animação – criando um campo tenso entre presente e passado, entre imagem, procedimento e palavra. Dessa maneira, Ana Elisa constrói uma tensão infinita entre a morte destes insetos, trazida pela sua história, pelo próprio procedimento da artista, enfim, pelas formas como se apresentam, visivelmente mortos, e a vida, uma potência visual criada principalmente nas relações com o acúmulo destes insetos, o excesso, a simetria. E assim, nesta tensão, os limites entre vida e morte parecem desfeitos.

 

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