Sobre o mar, o pôr-do-sol e a solidão (e certos truques também)

Aline Dias
(artista e Mestranda em Poéticas Visuais no Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

O mar

A Fabiana, quando mudou para Porto Alegre, levou um grande pôster, com uma imagem do mar. Lá, a Fabiana não conhecia quase ninguém e se sentia uma ilha. Hoje a Fabiana mora novamente em uma ilha e não vai à praia todos os dias. Às vezes, como todo mundo, a Fabiana se sente sozinha. E a Fabiana olha a cidade pela janela do apartamento. O apartamento da Fabiana não tem vista para o mar. A Fabiana nunca morou em um apartamento com vista para o mar.

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As pinturas de paisagem do romantismo alemão, tendo como referência central, a obra do artista Caspar Friedrich, apresentam uma relação intensa entre a figura humana e a paisagem natural. As figuras, muitas vezes de costas e imersas na contemplação da paisagem, são representadas radicalmente pequenas em relação à paisagem, revelando uma forte sensação de vulnerabilidade diante do espaço natural, explorado enquanto espaço inalcançável, incomensurável. Esta desproporção entre a dimensão humana e a paisagem ressalta a imensidão física e também metafórica da paisagem.

Hugh Honour comenta a estranha e intensa polaridade entre proximidade e distância nas pinturas de Friedrich, através do detalhamento preciso do primeiro plano em contraposição a imensidão imprecisa do plano de fundo. Alfredo de Paz destaca que essa diferença marcante entre os dois planos, implicam em modos diferentes de entender a paisagem. Além disso, a ausência de planos intermediários enfatiza uma recusa à utilização da perspectiva entre os diversos planos e a sua função mediadora, explorando uma sensação de abismo. (1)

As paisagens de Friedrich são mais imaginárias do que topográficas, carregadas de metáforas da espiritualidade e construídas sem a observação direta da natureza, senão em alguns esboços de detalhes. Nesse sentido, apontam para a dialética irreconciliável entre idéia e realidade através da natureza.

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Dentro de um apartamento não há choque com o infinito, mas um embate muito direto e concreto com o pequeno, com o imediato. Nesse sentido, e da certa solidão a que se refere o titulo deste texto, pode-se pensar em uma aproximação também com a pintura de interiores. Uma atmosfera silenciosa de Balthus, de certas pinturas iniciais de Matisse, do próprio Friedrich, que pintou diversas telas e desenhos das janelas de seu ateliê. Numa de suas pinturas, Friedrich retrata a esposa, de costas, olhando pela janela. Uma relação delicada entre dentro e fora, a presença marcante da janela, por onde se vê o fora e por onde também a luz entra no espaço interno.

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Nas imagens da Fabiana, a paisagem dificilmente está desvinculada da janela. A janela como um dispositivo do olhar. (2)
Alfredo da Paz comenta o papel da janela como símbolo da relação entre interiorização e abertura, uma mediação entre exterior e interior, aberto e fechado, subjetividade e natureza, espaço individual e alteridade.
Robert Rosenblum aponta a pintura de janelas de Fiedrich como metáforas pessoais de um mundo fechado e particular, abruptamente separado do mundo exterior. Ainda comenta que, mesmo sem a presença de nenhuma figura humana, a janela de seu estúdio poderia ser interpretada como um auto-retrato. (3)

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Como olhar para o mundo, como perceber e formular o espaço que habitamos, de onde olhamos, por onde nos deslocamos? A Fabiana parece desdobrar os modos de perceber e de representar os espaços e também a nossa relação com este espaço (o ponto de vista possível através do visor da câmera e da janela). E se debruça sobre a edição da paisagem que a arquitetura proporciona (4), quando recorta e coloca este pequeno pedaço da cidade na nossa sala. Indagações sobre como podemos perceber e representar os lugares que habitamos são exploradas em trabalhos como cidade baixa e fotografia passo a passo: apartamento. Em passo a passo o apartamento se apresenta de forma nova: custamos a entender o espaço, a apreendê-lo e projetá-lo mentalmente. A representação passo a passo escapa de nosso repertório de representações, das codificações que nos são familiares (as plantas baixas e cortes arquitetônicos ou a perspectiva central do desenho técnico e da própria fotografia). A Fabiana parece perguntar se existe alguma maneira de habitar este espaço plano, abstrato, das representações.
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O pôr-do-sol

A Fabiana olha a imagem de um pôr-do-sol no mar. A imagem está colada no vidro da janela. No entanto, a luz parece emanar da fotografia. Como a luz pode ser emitida pelo pôster colado no vidro da janela? A Fabiana pode explicar todo o processo. O flash rebatido, a luz colorida pelo papel celofane. Mesmo sabendo como funciona o truque, a imagem não deixa de intrigar.

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Entre a colagem e a manipulação digital, via photoshop, há algumas diferenças. O photoshop naturaliza as oposições e os choques de sentido que conferem uma certa ênfase crítica ou subversiva para a colagem. Na colagem a faca de Hannah Hock, por exemplo, é evidente que as imagens estão realmente cortadas e coladas naquela superfície.
Rosalind Krauss (5) aponta uma aproximação conceitual entre colagem e fotografia, na medida em que a colagem evidencia sua existência enquanto objeto real e, ao mesmo tempo, a sua capacidade de representar. A colagem trabalha sempre com a noção de fragmento, o que abala a suposta unidade da representação. Todo fragmento se ressente de estar foragido de seu contexto, dissociado de seu sentido inicial e em conflito com outro contexto. Rosalind Krauss ainda comenta o caráter de ausência de toda a representação, seja pela falta de volume, de textura ou da proporção. A colagem destaca esta ausência e aponta para a natureza da representação, enquanto aparência, redução. Além disso, a colagem problematiza o modelo ilusionista da representação, pois destaca sua realidade e a planificação desta na superfície da imagem.

E quando não é colagem? Quando a Fabiana, ela própria, se cola em outro contexto? (6) O que a Fabiana faz nesta mostra, não é tecnicamente colagem nem fotomontagem nem manipulação digital. Tudo aquilo que a imagem dá a ver, acontece mesmo. E a Fabiana parece gostar do desafio e até mesmo dos fracassos. Ela ri dos fracassos. Às vezes, ela refaz repetidas vezes a mesma imagem.

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A Fabiana age como se fosse meio mágica. Ou uma dublê. O filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004, como inúmeros outros, utiliza em certas cenas, o recurso da perspectiva forçada. A câmera, fixa em um único ponto de vista, subverte a perspectiva e confunde o olhar, na medida em que as personagens não compartilham a mesma relação de escala com o cenário. Nesta cena, uma das personagens está posicionada no primeiro plano, na frente de uma mesa, enquanto a outra, no fundo da cena, possui a metade do tamanho “normal”, o que lhe permite ficar de pé, sob a mesa. Sem utilizar nenhum recurso digital, o próprio cenário é construido de forma a possibilitar essa aparente incompatibilidade das proporções. A mesa, que ocupa quase toda a cena, tem os pés dianteiros pelo menos três vezes menores que os traseiros e o tampo, realmente, inclinado. A Fabiana parece buscar um procedimento semelhante na elaboração dos seus trabalhos, procurando outras formas de se relacionar com os objetos, com as imagens e a própria luminosidade. De enganar honestamente.

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A Fabiana vai mesmo à praia. Com o livro aberto diante do mar. A imagem da paisagem. Ou a paisagem como imagem. Ou a paisagem dentro da imagem. Ou a imagem dentro da paisagem.

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O artista Olafur Eliasson acredita que para a maioria das pessoas, o espaço da cidade é percebido como uma imagem, algo que não está relacionado a um processo ou mesmo com seu corpo. (7)

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Solidão (ou um breve comentário sobre o auto-retrato)

A artista Roni Horn conta que, lendo as cartas da escritora Emily Dickinson, começou a pensar sobre a idéia de viagem e de como a escritora não queria sair e ficava em casa insistentemente. Nas suas cartas, Dickinson dizia que viajava quando fechava os olhos e que em seu quarto, solitária, encontrava liberdade. Dickinson escreve em seu quarto 1775 poemas. Para Horn sua escrita é uma ilha, como a casa é também uma ilha. Olhando para si mesma no quarto ela inventou uma outra forma de viajar e ver lugares. Dickinson shut her eyes and went places this world never was. (8) Quando ela olhava pela janela do quarto ela era capaz de ver o mundo inteiro. (9)

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É muito difícil fotografar a si mesmo. Os auto-retratos, normalmente, implicam na busca da inscrição de si mesmo na imagem. No caso da Fabiana, o desejo de olhar a paisagem e incluir-se nela. E incluir-se na paisagem como alguém que está olhando para a paisagem. Em alguns auto-retratos, a Fabiana aparece de costas. Para isso, ela precisa ajustar a câmera, prevendo o seu lugar na imagem. Correr. Como o video de Backlight: 36 auto-retratos evidencia. Ou, minuciosamente, dar instruções a outra pessoa. E a Fabiana acaba sendo sujeito desta ação (enquanto aquele que produz a imagem) e, ao mesmo tempo, sujeito da imagem (na medida em que é retratada). O auto-retrato se articula em algum lugar entre o fracasso e a insistência.

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Fabiana fotografa os apartamentos onde mora. A Fabiana também passeia pela cidade. E ultimamente diz se sentir um pouco enclausurada dentro de casa. A Fabiana tem um tapete mágico. Ela consegue usar de tele-transporte para ir para praia. A Fabiana tem livros com imagens de paisagens maravilhosas.

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O empreendimento fotográfico da Fabiana não explora apenas a fotografia profissional ou artística, mas tambem a fotografia mais próxima, turística, amadora, pessoal. (10) Investigando alguns dos trânsitos entre os diferentes tipos de fotografia e os diferentes públicos que vêem e que produzem imagens, o trabalho nos leva a duvidar que sejam tão simples as diferenças. Ou tão claras. No que há de mais óbvio, nossas maiores dúvidas. (11)
A Fabiana provoca uma espécie de exercício de desconfiança. (12)

Algumas notas sobre o meu lugar neste texto:
Eu gostaria de ser ardilosamente poética neste texto. Esse era o meu desejo. Como uma tentativa de me aproximar do trabalho da Fabiana. Da maneira como percebo que ela pensa e se relaciona com o mundo. A Fabiana não é ingênua nem inocente. Ela se articula a partir de uma ironia muito fina. Desde o desejo de escrever e dos encontros com o grupo, venho pensando muito sobre o trabalho da Fabiana. Num exercício de deixar as imagens ocuparem espaço entre os dias e todos os outros pensamentos e atividades do cotidiano. Percebo que, como artista, me aproximo do trabalho por vieses os mais diversos. Por exemplo, fico lembrando do que eu mesma vejo da minha janela. Das muitas imagens da cortina azul do meu quarto. Da vista do bambu. Associo também a um vídeo, de um menino num balanço, visto pela janela de um quarto de hotel em Curitiba. Como ele era invisível e como eu também era, olhando para ele. Penso, sobretudo, no processo da Fabiana. Fico intrigada. De onde surgem os interesses, o que motiva nossas reflexões, o que nos interessa? Como perceber os indícios de como o artista opera, os seus procedimentos, os percursos por onde o trabalho cresce e se desdobra? Menos que as relações mais teóricas com a cidade, a fotografia ou a paisagem, me interessa pensar na forma como o trabalho se constitui e se apresenta a nós. Ainda que tateie por essas reflexões, me instiga focar as operações pelas quais o trabalho se estrutura e cria sentidos, pensar nas imagens, no que está mesmo ali, entre a dúvida e a crença.
Aproveito para agradecer a Fabiana e ao grupo por todas as nossas conversas.

Notas:

1. HONOUR, Hugh. El Romanticismo. Madrid: Alianza, 1994. e PAZ, Alfredo de. La revolución romántica. Poéticas, estéticas, ideologias. Madrid: Tecnos, 1992.

2. A relação entre enquadramento e janela é abordada por Fabiana (em sua disssertação de mestrado), tendo como referência o pensamento de Anne Cauquelin (L´invention du paysage), que ressalta o enquadramento da janela como indispensável para a construção da paisagem. Esta relação também permite aproximar o enquadramento da paisagem pela janela e pelo dispositivo fotografco.

3. ROSENBLUM, Robert. La Pintura Moderna y la Tradición del Romanticismo Nórdico – de Friedrich a Rothko. Madrid: Alianza, 1975.

4. Fabiana em sua dissertação de mestrado, aborda a relação entre enquadramento fotográfico e as compsições pelo recorte da paisagem na janela, relacionando paisagem e arquitetura e referenciando o livro “O Desenho da Janela” de Luis Antonio Jorge.

5. KRAUSS, Rosalind. O Fotográfico. Barcelona: Macula, 1990.

6. Gostaria de referenciar, em algumas discussões recentes do grupo, as muitas questões e dúvidas, especialmente sobre conceitos de encenação e ficção. Mas que não pretendo abordar neste momento, ainda.

7. OBRIST, Hans Ulrich. Arte Agora em cinco entrevistas. São Paulo: Alameda, 2006.

8. HORN, Roni. When Dickinson Shut Her Eyes. In.: NERI, Louise; COOK, Lynne; DUVE, Thierry. Roni Horn. Phaidon, 2000. p.96.

9. HORN, Roni. Journal of Contemporary Art. http://www.jca-online.com/horn.html acessado em agosto de 20003. Entrevista.

10. Referência ao trabalho Os Segredos da Boa Fotografia, que explora os trânsitos entre fotografia amadora, artística e profissional bem como a problematização de sua inserção no espaço institucional.

11. Referência ao texto Paisagem Incógnita de Gabrielle Althasen, publicado nesta edição da revista “um ponto e outro”, na seção “outros textos”.

12. Termo empregado pela artista, na dissertação de mestrado, abordando algumas das relações entre o trabalho “Os Segredos da Boa Fotografia” e o livro “Manual da Ciência Popular” de Waltercio Caldas.

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