A beleza dos rejeitados na obra de Renata de Andrade

Silvana Macêdo

Gratis reúne esculturas, pinturas tri-dimensionais e fotografias de Renata de Andrade realizadas especificamente para o Museu Victor Meirelles.

A palavra “grátis” muitas vezes é usada em propagandas para atrair consumidores, sempre ávidos para encontrar uma boa oferta. Talvez esta seja uma estratégia irônica usada pela artista para lembrar seu público de que os trabalhos apresentados lidam, em diversos níveis, com as questões postas pelo capitalismo global no qual estamos inseridos.

Renata usa como ponto de partida objetos descartados, elevando o lixo ao status de arte, mas não o faz da maneira Duchampiana. É bom lembrar que os objetos que constituíam os ready-mades de Duchamp eram selecionados por um princípio de indiferença estética. Já na obra de Renata, seu critério é abertamente estético: ela re-arranja o lixo de maneira harmoniosa em instalações, pinturas e esculturas, criando composições coloridas, vibrantes e sedutoras. Seu objetivo não é o de chocar ou agredir o público, mas parece querer re-educar seu olhar para encontrar beleza em situações inusitadas.

Seu trabalho faz uma crítica aberta ao problema ambiental causado pela produção em massa de bens de consumo nas sociedades industriais. A artista comenta que se ocupa do “[...] imenso lixo produzido, abandonado, reciclado, revivido. As implicações da superprodução, as relações entre a riqueza e a extrema pobreza, o valor perdido mas ainda existente, a beleza não reconhecida ou não vista.”1

Portanto sua atitude em relação ao lixo é ambígua: o lixo não é só um problema do qual queremos nos livrar, mas também pode ser substrato para contemplação estética. A artista parece querer seduzir seu público justamente com os rejeitos deste sistema de excessos, mas o contexto que suas intervenções se dão podem criar leituras distintas, às vezes de atração e repulsa ao mesmo tempo. Por exemplo, ver um pedaço de plástico em um rio ou numa praia muitas vezes causa revolta (especialmente pela preocupante quantidade de lixo que vai parar nos oceanos, gerando diversos problemas para a fauna marinha). Portanto, é justamente quando expostos no meio ambiente, seja em parques ou no contexto urbano, que as intervenções de Renata causam um certo desconforto, misturado com a atração pelas suas composições cuidadosamente construídas.

Já dentro do espaço museológico, a obra parece apontar de uma outra maneira para o problema do lixo, que normalmente ninguém quer ver. Depois que o lixo sai da nossa casa, a tendência é não pensarmos mais onde vai parar tudo que jogamos fora. Renata nos traz de volta este material para nos fazer refletir. Ao expor o lixo do museu, é como se a artista expusesse ou quase constrangesse a instituição, criando uma situação de auto-crítica. Renata nos lembra que todos nós estamos implicados nesta questão, pois mesmo aqueles que estão preocupados com a degradação ambiental também poluem diariamente.

As pinturas dos retratos em suportes diversos remetem novamente ao ambiente urbano, à linguagem visual das ruas, ao graffiti, aos desenhos de quadrinhos. Como na pintura de Philip Guston, Renata se apropria da linguagem dos quadrinhos, mas ao invés de usar o suporte tradicional de pintura, Renata explora os desenhos, cores, estampas florais de caixas encontradas ao acaso. Ou seja, o imaginário de Renata se alimenta de resíduos da cidade, do contexto urbano e da cultura de massa.

Outros artistas também se apropriaram de material proveniente da cultura de massa e questões relacionadas ao consumo, como artistas associados à Pop Art e posteriormente à crítica do mercado, mas o fizeram de maneira diferente de Renata. Haim Steinbach e Jeff Koons, por exemplo, na década de oitenta expunham objetos produzidos em massa (sonhos de consumo) em espaços museológicos, conferindo ainda mais “glamour” aos mesmos, como obras de arte para contemplação estética. Estes artistas se dispuseram a evidenciar os mecanismos usados pela mídia que usualmente se fundamenta na criação de uma ilusão de individualidade, conferida ao consumidor, pelos bens que consome. Desta forma, artistas críticos do mercado aproximaram a galeria e o museu de arte da loja de departamento. Esta atitude é ambígua, pois como na Pop Art, há uma celebração desta cultura ao reproduzi-la, mesmo que se proponha a criticá-la concomitantemente.

No caso de Renata, sua obra se volta para o resultado indesejado destes jogos de prazer e consumo, focando no outro extremo deste sistema, os rejeitos. A temática abordada por Renata pode ser alinhada ao trabalho de outros artistas contemporâneos que também vêm se concentrando na questão do lixo, como os auto-retratos dos colaboradores Tim Noble e Sue Webster, as instalações de Tomoko Takahashi feitas a partir de lixo tecnológico, e instalações de Mark Dion com pássaros empalhados montados em pilhas de lixo, entre outros.

Laura Belém. Paisagem do Leblon no Carnaval, 2002

Laura Belém. Paisagem do Leblon no Carnaval, 2002

Laura Belém, em Paisagem do Leblon no Carnaval, 2002, também lida com a questão da poluição ambiental. A artista coletou na praia do Leblon objetos deixados pelos carnavalescos, criando depois uma espécie de “relicário” com alguns destes objetos. Anos atrás Bené Fonteles fez uma performance recolhendo o lixo deixado em praias (de rio) e cachoeiras perto de Cuiabá, Mato Grosso, retornando-os em seguida para a população desta cidade.

Mais do que mudar a maneira com que se olha o lixo, o trabalho de Renata suscita algo mais urgente: a necessidade de se olhar para o lixo. Renata nos traz o lixo de volta para ser olhado, para pensarmos no resultado dos excessos desta sociedade do espetáculo. Ela interrompe a brincadeira divertida do consumo, o frenesi encantado da estética da ilusão multiplicada pela mídia comercial, pelo glamour das propagandas que nos levam a querer indefinidamente algo mais. Novas necessidades são inventadas a cada dia, e quando se resiste, ainda há o argumento de que afinal, consumir é bom para a economia, gera empregos e riquezas, etc.

Certamente a obra de Renata de Andrade é multifacetada e muito mais pode-se dizer da riqueza de sua sensibilidade pictórica, da radical hibridez de sua pintura, que explora diversos diálogos com a escultura, desenho e fotografia no seu processo pictórico. Mas estes aspectos podem ser o foco de uma infinidade de outros textos…

Para encerrar, retorno ao nome da exposição, pois o mesmo também pode nos remeter, paradoxalmente, à idéia amplamente difundida por ambientalistas de que não existe “lanche grátis” nas nossas trocas com o meio ambiente, ou seja, sempre há um preço, um impacto, uma pegada deixada.

Notas:
1. Renata de Andrade em entrevista concedida por e-mail à revista um ponto e outro.

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