n. 6 – Entrevista

Revista Eletrônica um ponto e outro nº 06 – Martinho de Haro

Revista do programa de exposições do Museu Victor Meirelles

Entrevista

Lembranças do amigo inesquecível

por Néri Pedroso

Salim Miguel Foto: Gill Konell

Salim Miguel
Foto: Gill Konell

O escritor Salim Miguel, um dos integrantes do Grupo Sul, movimento que instaurou o modernismo catarinense na década de 1940, conversa sobre Martinho de Haro, que participou ativamente da revista “Sul”, produzida por intelectuais, escritores e artistas com o objetivo de renovar o pensamento crítico catarinense com reflexões sobre diferentes áreas da criação, como a literatura, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Boa memória, boa conversa, Salim lembra do amigo, como homem reservado, generoso e, sobretudo, um profissional das artes, cujo exemplo deveria ser seguido na atualidade. Nesta entrevista, concedida com exclusividade para a revista “um ponto e outro”, lembra do primeiro encontro, do convívio social, da “Sul”, da conversas, da formação do circuito, das leituras, do reconhecimento social, do profissionalismo e, por fim, sobre o centenário, que envolve três exposições simultâneas, além de outras iniciativas. Ele alerta sobre a necessidade de assegurar a itinerância deste acervo, expondo-o especialmente no eixo Rio-São Paulo. “O importante é que a mostra não fique em Florianópolis, que o governo catarinense, do Rio, de São Paulo ou federal, alguém tenha sensibilidade”, defende o escritor.

O primeiro encontro
A Eglê conheceu o Martinho antes que eu. A família de Eglê é de Lages e a de Martinho de São Joaquim. Naquela época, nos anos 1930 e 40, São Joaquim e Lages eram a mesma coisa. Eu cheguei em Florianópolis em 1943 e ele em 1944. Quando estourou a Segunda Guerra, ele estava em Paris com bolsa, estudando com um nome que não é importante das artes plásticas francesas, mas era talvez o melhor professor chamado Othon Friesz. Ao estourar a guerra em 39 foi uma loucura. O Martinho não sabia como voltar para o Brasil, o Rodrigo tendo acabado de nascer. A família teve de sair de Paris para Madri, de Madri para Lisboa, onde esperou um navio que viesse para o Brasil. Só que, em vez de vir para Florianópolis, ele foi para São Joaquim, onde ficou até 44. Eu cheguei antes, em 43. Só nos conhecemos em 46, quando fizemos um primeiro contato. Martinho já estava começando a trabalhar como professor, não tinha nenhuma vocação, mas precisava sobreviver, né? Então, começou a fazer principalmente retratos de políticos. Na Assembléia Legislativa ou no acervo do governo há todos os governadores e políticos pintados pelo Martinho. Numa destas vezes em que ele estava pintando um destes, nos conhecemos. Imediatamente vimos que tínhamos afinidades, embora a diferença de idade. Ele nasceu em 1907, eu em 24. Era uma diferença grande, mas ao contrário, já começamos nos tratando por tu. Durante todos os anos que fiquei em Florianópolis, até ser obrigado a sair de Santa Catarina por causa do golpe militar, estávamos sempre juntos, íamos à casa dele, a Eglê e eu, víamos o que ele estava fazendo. Quando vinha alguém de fora, não precisava ser um artista plástico, um pintor ou desenhista, desde que fosse alguém que se interessasse por arte, fazíamos questão de levá-lo até a casa do Martinho. A gente nunca perdeu contato, nem quando mudamos para o Rio de Janeiro. Quando vinha a Santa Catarina procurava por ele. No livro chamado “SC Terra e Gente”, o primeiro álbum sobre o Estado feito no governo Colombo Salles, o último capítulo é dedicado às artes plásticas, com texto da Eglê. Não é crítica, é um levantamento. A primeira página e foto, em cores, um álbum grande, é sobre o Martinho de Haro. A gente nunca perdeu o contato com ele.

Convívio social
Ele era meio arredio no convívio social, mas era um excelente papo quando não era um grupo grande, quando era com amigos com quem ele se afinava – o que acontece com muita gente, não é mesmo? Eglê, dona Maria (mulher do artista) e o Martinho foram grandes amigos. Quando a gente levava alguém lá, lembro, por exemplo, o artista, um dos principais capistas da Editora Globo, um gaúcho chamado Edgar Koetz, (1913-1969) que vinha muito a Florianópolis. Na casa do Martinho, os dois emendaram um papo que não terminava, aí o Koetz quis ver a cerâmica popular criada em São José. A dona Maria não quis ir. Fomos no carro do Martinho, ele dirigindo, o Edgar, ao seu lado. Eu e a Eglê no banco de trás. A Eglê até hoje lembra, meio apavorada (riso) que, em cima da ponte – que naquela época não era cimentada, era de madeira -, o Martinho se entusiasmava e tirava as mãos da direção. Falava (riso) com o Edgar, às vezes virava-se para falar com a Eglê e comigo, abanando as mãos e o carro (riso). Os artistas Carlos Scliar (1920-2001), o Bruno Giorgio (1905-1993), o escritor Marques Rebelo (1907-1973), um dos que ajudou a recuperar o Martinho, todo esse pessoal, nós levávamos à sua casa. E quando vinha alguém que ele achava que nos interessasse, fazia questão de nos chamar. De maneira que era, como diz a dona Maria na entrevista para o Walmir Ayala (1933-1991), meio arredio mas, ao mesmo tempo, tinha o outro lado, quando era com um grupo pequeno com pessoas com quem ele se acertava. Por exemplo, ele fez para nós uma coisa fantástica. Para lançar a revista “Sul” em novembro de 1947 – está fazendo 60 anos, parece que foi ontem! -, tivemos de fazer um espetáculo de teatro, três peças em um ato. Em 49, para continuarmos tivemos de fazer um segundo espetáculo, já aí com a peça em três atos “Cândida”, de Bernard Shaw (1856-1950). Não tínhamos dinheiro para fazer cartazes, propaganda, para nada, então o que fizemos? Fomos ao Martinho e pedimos que ele fizesse a cara de cada um dos intérpretes. Ele fez. Quer ver uma coisa? (Salim vai à sua biblioteca para mostrar um desenho de Eglê, emoldurado na parede). Montamos um painel grande com a cara de todos neste tamanho, neste formato. Expomos durante a apresentação, quando terminou, fomos entregar a ele, que disse “não, agora, isso é de cada um de vocês”. Ele presenteou, vê como ele era, generoso, um negócio de valor.

Revista Sul
Começamos a pedir colaborações de Martinho para a “Sul”. Ele fez três capas inteiramente diferentes, duas eram ilustrações e a terceira…tinha acabado de falecer o Graciliano Ramos (1892-1953), queríamos dedicar uma homenagem, fomos ao Martinho com um retrato do escritor. Ele começou, nos anos 50, a fazer capas e o miolo da revista com numerosas ilustrações, inclusive nos últimos números têm uma farinhada. No painel que está na reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tem uma farinhada, um avanço melhor e maior cuja idéia básica é a que está na revista.

Conversas
Conversávamos de maneira geral, mas ele tinha uma preferência por mar. O mar é presença constante. Além disso, a natureza-morta, que é o que eu tenho dele, uma natureza-morta. Ele sabia, como pouco pintores, dar vida a uma natureza-morta. No Rio, conviveu com o Di Cavalcanti (1897-1976), com esse pessoal todo. Se o Martinho, depois do curso em Paris tivesse continuado a morar no Rio, seria um dos nomes altamente representativos da pintura moderna brasileira. Não sei se pelo temperamento ou pelo trauma que foi interromper o curso em Paris e ter de fazer uma viagem complicada para chegar ao Rio e Santa Catarina, ele se isolou durante quatro anos. Exilou-se em São Joaquim, de onde só saiu em 1944, quatro anos depois. Lá ele se isolou, como não era de muitas relações, tinha amigos, conhecidos, mas não tinha um grupo grande. Tinha afinidades, mas se não ia com a cara de uma pessoa (riso), fim de papo! Sua permanência em São Joaquim fez com que ele não se tornasse um nome conhecido nem em Florianópolis. Costumo dizer, e não estou exagerando, que nós ajudamos a recuperá-lo sob esse aspecto: a revista não era mais de Florianópolis e de Santa Catarina, era do Brasil. Tínhamos correspondentes e distribuição em todo o país, de um extremo a outro, e de fora do país também, estávamos em quase 20 países. O Martinho passou a ser um pouquinho mais conhecido e aí num determinado momento não éramos mais nós, as pessoas que vinham a Santa Catarina queriam conhecer o Martinho. Não era suficiente, era necessário que ele fizesse exposições. Para sobreviver, além de ser professor, de pintar políticos e administradores, criava painéis. Era a maneira que tinha para se agüentar, fazia quadros que algumas pessoas compravam por um preço abaixo do que valiam, mas para ele era importante. Lembro, que nos anos do Rio de Janeiro, várias vezes, ele esteve no nosso apartamento, nós oferecíamos jantares, ajudamos na divulgação, tornou-se mais conhecido, reencontrou algumas das pessoas com quem ele tinha convivido.

Formação do circuito
Ele participa do processo de criação do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), em 1949, acompanha a exposição e está presente nas palestras do Marques Rebelo, que foram altamente provocativas. O Rodrigo de Haro tinha dez anos, ele estava sempre junto do pai. Em 1952 ou 53, Rebelo faz uma exposição em Belo Horizonte e leva, talvez, o primeiro desenho do Rodrigo para fora de Santa Catarina. O Rebelo incentivava muito o Martinho, tinha encantos pela pintura, dizia que ele devia sair, fazer exposições fora. Entre 64 e 69, quando voltávamos para fazer férias em Florianópolis, Eglê e eu, íamos visitá-lo. Quando ia ao Rio, ele nos visitava. Os contatos rarearam, mas quando voltamos, até ele falecer em 85, a gente retomou o convívio, conversávamos muito, discutíamos, falávamos na obra dele, ele estava querendo saber o que estávamos fazendo. Quando faleceu, estávamos em Lisboa. A “Sul” terminou em dezembro de 57, mas o número só foi lançado em janeiro de 58. Fizemos um jantar com uma velinha acesa, como se fosse um velório, falando dos méritos e deméritos da falecida. Logo, um grupo de artistas, a maioria ligados a “Sul”, criou o Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis (Gapf). O Martinho participou, agora qual foi a participação, se efetiva como foi a do Hugo Mund Jr., Ernesto Meyer, Tércio da Gama, Aldo Nunes e outros, não sei. Mas que ele participou, participou. E, é claro, era importantíssimo ter entre eles o Martinho.

Leituras
Ele tinha suas preferências, lia alguma coisa de ficção e de história, mas lia mais diretamente sobre a arte.

Reconhecimento local
Ele era mais conhecido como o pintor dos parlamentares e dos governadores. Num certo momento achavam até estranho um homem que tinha estudado em Paris estar envolvido com esse grupo de malucos, que éramos nós. Ele nos ajudou, mas em contrapartida nós também o ajudamos. Agora vou deixar de falsa modéstia (riso), nós o incentivávamos: “Ô Martinho, já sairam três números da revista e tu não trouxestes mais nada para a gente? Que tu tens por aí? Faz um desenho para nós. Dá um desenho que tu tenhas feito”. Às vezes tínhamos que pedir, outras vezes ele chegava e dizia: “Agora tenho um desenho para vocês”. Consultando a “Sul”, acredito que a gente tenha, entre capas e miolos, uns oito desenhos dele. Depois publicamos “Contistas Novos de Santa Catarina”, pela primeira vez um projeto de juntar o pessoal novo que estava fazendo ficção. Cada conto era ilustrado por um jovem artista plástico. A única exceção foi o Martinho, que ilustrou o meu conto chamado “Rinha”.

Profissionalismo
O que me encanta no Martinho é a consciência profissional. Qualquer tema que ele trata, seja uma marinha, uma natureza-morta, uma paisagem, uma figura humana é sempre com consciência profissional de que tem a obrigação de fazer o melhor do melhor dentro das suas possibilidades. Ele dominava não só o desenho, mas também a cor, sabia como jogar a cor. Essa consciência que ele tinha, deve ser a marca de todo o artista, seja ele de que área for.

O centenário
Fui à abertura da mostra no Masc. Naquele dia, tinha tanta gente que eu não tive nem coragem de circular. Quero ir lá com calma, para ficar duas, três horas. Vi uma meia dúzia de quadros, mas não tive nenhuma idéia a respeito do que foi selecionado, porque no livro vão estar cerca de 500 trabalhos e ali foram selecionados 120. Ao mesmo tempo, estão ocorrendo mais duas mostras de desenhos, uma no Cruz e Sousa e outra no Victor Meirelles. A comissão do centenário, composta de pessoas apaixonadas por pintura e pela obra de Martinho, deve ter feito uma seleção mais representativa possível das várias tendências de sua pintura.

A última palavra
Essa exposição precisaria ser levada já nem digo para outros municípios, mas pelo menos para o Rio e São Paulo. Pelo que fiquei sabendo a tiragem do livro vai ser de mil exemplares, é uma pena não terem conseguido recurso, porque a medida que aumenta a tiragem diminui o custo. Se tirassem 2 mil exemplares diminuiria o custo. O preço, não sei como é que vai ser ser, se será vendido, poderia ser um pouco menor e atingir um público maior. Esse álbum deveria ser mandado para algumas galerias. Lembro que, além do “Santa Catarina Terra e Gente”, no qual se fez questão de se dar um capítulo sobre artes plásticas, existe um livro publicado pelo Léo Christiano, um pequeno editor do Rio de Janeiro que nos anos 70 fez um álbum sobre o Martinho patrocinado pela Perdigão. A seleção é muito boa, a introdução do Walmir Ayala. Além disso não existe mais nada. Coisa curiosa, quando assumi a direção da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), o Léo Christiano perguntou se eu não queria comprar alguns exemplares, porque a primeira coisa que fiz foi abrir um posto de venda para a editora. Comprei talvez quase todo o saldo, menos de dois meses não sobrava um único exemplar. Isso mostra o interesse sobre a obra. O importante é que a mostra do centenário não fique em Florianópolis, que o governo catarinense, do Rio, de São Paulo ou federal, alguém tenha sensibilidade. Não é fácil levar uma exposição, há o custo do transporte, do seguro, mas era importantíssimo que os trabalhos saíssem de Santa Catarina para tornar mais conhecido um artista da importância do Martinho de Haro. Repito: se tivesse continuado no Rio seria um nome tão representativo quanto o Di Cavalcanti, um Pancetti (1902-1958), um Iberê (1914-1994), um Portinari (1903-1962) e tantos outros.

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