Módulo 4. Dimensão Simbólica – Patrimônio

Patrimônio – Memória e Política

O Museu Victor Meirelles apresenta aos visitantes o quarto módulo da Exposição Victor em 4D, a dimensão simbólica. Ao longo do Projeto percorremos as características estéticas da produção artística de Victor Meirelles, as histórias contadas em suas pinturas e as relações políticas de sua arte e de seu envolvimento na Academia Imperial de Belas Artes, como aluno e como professor. A dimensão simbólica pretende discutir o que acontece com o legado deixado pelo pintor após sua morte e o reconhecimento de seu trabalho como patrimônio brasileiro.

Como, então, se estabelecem os patrimônios no Brasil? Por que Victor Meirelles é considerado patrimônio nacional? Política, memória e poder se entrelaçam para construir ou perpetuar identidades e valores. Ao patrimônio atribui-se o papel de alicerce da história e da cultura, em que se abrem cenas de disputa, de interesses, de esquecimentos e de resistências. O patrimônio está (ou deveria estar) em permanente construção, proporcionando diálogos atualizados com as mudanças da sociedade. Como, nos dias de hoje, interpretamos e fazemos uso das obras de arte de Victor Meirelles como nosso patrimônio?


Vista da Desterro:

1985 – O “descobrimento da Desterro”

A tela “N. S. do Desterro vista do adro da Igreja do Rosário e de São Benedito – 1847”, do artista Victor Meirelles, foi descoberta e considerada como de autoria do pintor, pelo ex-diretor do Museu Nacional de Belas Artes, Alcídio Mafra de Souza, em 1985, por ocasião da reunião do Conselho Consultivo da SPHAN na Ilha de Anhatomirim, nesta capital. A obra encontrava-se na Sacristia da Igreja de N. S. do Rosário e de São Benedito, “em péssimo estado de conservação, com sua estrutura e estética abalada pela degradação natural do tempo e por intervenções danosas” razão pela qual foi retirada da Igreja e levada ao MNBA, para restauração, em 08 de maio de 1985.

Em reunião realizada no dia 18 de novembro de 1985 no Paço Imperial-RJ, o Conselho Consultivo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional aprovou, por unanimidade, a inscrição da Tela no Livro Tombo em 17 de abril de 1986. Foi decidido que a obra ficaria em exposição permanente no Museu Casa de Victor Meirelles, com vistas a sua preservação.

Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro - Atual Florianópolis, Victor Meirelles de Lima, circa 1851, Florianópolis/SC, Óleo sobre tela, 78,2 x 120,0 cm

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Formação da coleção / Aquisições MVM

O Museu Victor Meirelles reuniu até o momento 73 obras de arte relacionadas ao pintor Victor Meirelles, entre pinturas a óleo, aquarelas e desenhos de suas várias fases e outras obras de arte de artistas relacionados à sua trajetória.

A coleção começou a ser formada no ano de 1951 por uma transferência do Museu Nacional de Belas Artes de 27 obras de arte. Na época, a “Casa Natal de Victor Meirelles” tinha como objetivo preservar a casa histórica onde Victor Meirelles viveu parte de sua infância, tombada pelo IPHAN como patrimônio nacional, e exibir um conjunto inicial de desenhos e pinturas de sua autoria para o público. Nos anos de 1961 e de 1984, o Museu Nacional de Belas Artes transferiu novas obras de arte para o Museu Victor Meirelles, que passou a buscar ativamente doações de outras instituições e de colecionadores particulares.

Por cerca de 40 anos desde a sua inauguração, a “Casa Natal de Victor Meirelles” privilegiou a preservação da casa histórica e manteve exposto, com as dificuldades financeiras e de gestão enfrentadas ao longo desse tempo, as poucas obras de arte que detinha. Era um museu “evocativo da vida e da obra daquele mestre de pintura do século XIX”, como defendeu Rodrigo Melo Franco de Andrade, em meio à política cultural de criação de museus regionais. Era, ainda, pela voz de Edmundo da Luz Pinto, de quem o museu recebeu algumas obras de arte em doação, a advertência “às novas gerações dos perigos de certas originalidades, ensinando-lhes a evolução sem subverter totalmente os Patrimônios de Arte, de Beleza, de Verdade e Tradição…”.

Somente entre as décadas de 1980 e 1990 que o Museu Victor Meirelles se profissionaliza, após longo processo de restauração de sua arquitetura e de implementação de diferentes programas de gestão: com uma equipe renovada, o Museu passou a contar com uma Reserva Técnica, diferentes projetos de ação educativa e cultural e exposições temporárias sobre Victor Meirelles mas, principalmente, de arte moderna e contemporânea. O Museu tornou-se um centro agregador em artes visuais, adicionando à sua missão o estímulo à produção e à experimentação artística.

A ideia de patrimônio mudou substancialmente no decorrer do século XX no Museu Victor Meirelles. E hoje em dia, sob a tutela do Instituto Brasileiro de Museus desde o ano de 2009, como estamos pensando nossa história e nossas coleções? Essa exposição serve como um balanço, uma reflexão sobre nossas próprias políticas de patrimônio. E gostaríamos que você também participasse nos enviando contribuições ou uma simples resposta para a pergunta: por que Victor Meirelles é patrimônio brasileiro?


Respostas (Plaquetas): Por que Victor Meirelles é patrimônio brasileiro?

Porque é nosso e ao elaborar a composição da primeira missa emoldurada pelos primeiros brasileiros bestializados assistindo ao espetáculo histórico nos representou enquanto povo brasileiro por séculos.

Por ter captado do poema Caramuru de Durão não o lado integrado mas a perda da vida da indígena desprezada pelo colonizador.

Por ter envolvido suas telas em paisagens nacionais e emocionais, preparando o caminho para a elaboração de seus Panoramas populares e educativos que, por isso mesmo, não foram preservados, servindo como um alerta de como é fácil perder o hoje considerado popular.

Fátima Nascimento
Museóloga / Antropóloga


Cada tempo tem seu artista, que tentará transpor à sua obra de arte o seu tempo. Meirelles não foi diferente. O autor da pintura histórica mais conhecida pelos brasileiros. A primeira missa do Brasil, é obra-síntese do “projeto civilizatório” durante o segundo império. A importância das obras de Meirelles permeia, até os dias de hoje, o imaginário brasileiro, não apenas através em suas grandes pinturas históricas mas sobretudo no esmero de seus desenhos e nas longas horas de estudos, dissecando cada traço tornando-o certeiro e absoluto. Artista de relevância, que soube não apenas apresentar, mas descrever em imagens as questões que perpassavam o seu período.

O grande artista é aquele que, com os dois pés fincados em seu tempo, está com a mente direcionada ao futuro, e no século XIX o grande chamou-se Victor Meirelles.

Daniela Matera
Museu Nacional de Belas Artes/Ibram


Porque sua obra é parte constitutiva do discurso de um Brasil que procurava instaurar pela arte um arcabouço de imaginário nacional. Na pintura histórica e na paisagem, em batalhas e panoramas Victor Meirelles mesclou o neoclássico e o realismo para recriar um sentido de identidade brasileira temperada pela visão romântica. Tal visão foi eventualmente suplantada pela perspectiva modernista contudo, o artista permanece como um dos principais expoentes do projeto cultural do Brasil que iniciava seu percurso enquanto Nação independente.

Anna Paola Baptista
Curadora dos Museus Castro Maya Ibram/MinC


Victor Meirelles foi para Antonio Parreiras muito além de uma fonte de inspiração qualitativa na sua obra pictórica. Foi um amigo que o instigou a desafios que despertaram o seu interesse pela representação singular de momentos solenes da história brasileira e de personagens heroicos regionais.

Kátia de Marco
Diretora do Museu Antonio Parreiras


Porque seu trabalho, quando inquirido, segue possibilitando uma série de reflexões sobre arte, identidade e imaginário brasileiro, especialmente no que se refere às pinturas de temática histórica. Mais que isso, porque por meio da problematização dos usos de sua obra nos séculos XIX, XX e XXI, somos capazes de realizar um potente exercício de (auto)crítica sobre nossos projetos de passado e futuro enquanto comunidade sistematicamente imaginada. Victor Meirelles foi um homem de seu tempo. Sua obra, entretanto, tem outro tempo: o nosso.

Leticia Bauer
Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

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